O luxo contra o planeta

Sou publicitário. Pouco entendo de biologia, ecossistemas ou conservação da natureza além do que vejo e leio em textos e jornais diariamente. Contudo, através dos olhos de quem conhece a teoria da comunicação e sabe até que ponto ela pode – e, com efeito, consegue – interferir na capacidade decisória das pessoas, eu vejo a questão da degradação do planeta por um outro prisma. Fala-se muito da vontade política – ou da falta dela – como fator preponderante na conscientização das populações quanto às questões relacionadas ao meio ambiente. Tudo, sob esse aspecto, é trabalhado ao nível da macro-economia, da macro-energia, da macro-produção de alimentos… e na verdade, isso tudo é uma ilusão. Porque quem degrada o meio ambiente e o planeta não é o macro, e sim o micro. 


Por exemplo, fala-se muito na questão da poluição causada pela queima de combustíveis fósseis e em sua possível mudança para a queima de biocombustíveis, mais limpos e menos agressivos. Vamos lá, quem consome esse combustível todo? Automóveis, certo? Não, não apenas. Automóveis, caminhões, navios, trens a diesel, indústrias… tudo isso consome combustível. Tudo começou, na verdade, com trens, navios e indústrias e o consumo de carvão, na época da Revolução Industrial do século XIX. Dois séculos depois, há tecnologia suficiente para que motores à explosão não fossem mais necessários. Por que eles ainda são fabricados? Por causa do lobby da lucrativíssima indústria de petróleo, certo? Não. Quem afinal consome o que é produzido pela indústria de petróleo? Quem usa. E quem usa? Indústrias, transportadores e… donos de automóveis. Agora vem a questão primordial. Interessa à indústria ou a grandes transportadores que tipo de energia move suas máquinas? Sim, mas pelo custo. Se mover tudo à eletricidade fosse mais barato e eficiente que mover tudo a gasolina e diesel, a indústria e os transportadores mudariam de foco, é óbvio. Mas não os donos de carros. Afinal de contas, quem de nós já sonhou com uma Ferrari elétrica que chegasse a fantásticos… 110 km/h, quando uma a gasolina puríssima de alta octanagem pode chegar próximo aos 400?

Isso é um exemplo que pode ser transposto a dezenas de áreas de atuação do mercado. Roupas, equipamentos eletrônicos, material esportivo, brinquedos, alimentos. É o glamour da exclusividade, a exacerbação dos desejos incutidos na população pela publicidade o que torna quase impossível, por exemplo, que um governo se atreva a banir certos produtos e indústrias nocivos ao ambiente. O mercado colocou na cabeça do ser humano que ele pode tudo, bastando apenas pagar por isso. 

Bem, eu concordo: cerceamento de liberdade é algo abominável. Mas, falemos a verdade: ninguém precisa andar a mais de 110 km/h numa rua da cidade ou mesmo numa rodovia. A tecnologia para que os automóveis fossem limitados eletronicamente a velocidades limites em determinadas vias existe desde o tempo da primeira guerra. Porque não se usa? Por que não se faz isso e se salva milhares de vidas por ano? Ora, porque as pessoas compram carros potentes para poderem usufruir de sua potência, para deixar fluir a testosterona e a libido mostrada nos anúncios por suas veias. Queimar gasolina em grandes quantidades é um símbolo de status e poder, muito associado aos americanos e suas banheiras de oito cilindros, mas plenamente compartilhado com o resto do planeta. Ninguém quer abrir mão: quem compra o carro, quem fabrica o carro, quem constrói a rodovia e quem produz o combustível.

O mundo é movido, em grande parte, pelo desejo do luxo, pelo desejo do supérfluo, pelo desejo do conforto. Eis a China e sua nova economia como prova cabal disso. Se o planeta produzisse somente o necessário, a demanda ainda seria excessiva. Mas o que ocorre é o contrário: o planeta produz em excesso e a população é levada a querer consumir muito mais do que precisa. E isso, no final das contas, é luxo, e é o luxo que move o mundo e é o luxo que destrói cada dia mais este mundo que já não pode se dar tanto ao luxo de tamanho desperdício.


(Texto escrito pelo caríssimo Marcos VP, e enviado por email. Marcos VP também quer fazer a sua parte na disseminação da idéia de vida verde. Adoramos que ele teve a iniciativa de escrever para a gente, muito valiosa. Obrigada, Marcos! Se você quiser também enviar um texto para ser publicado no Faça, o email do blog é: facaasuaparte ARROBA gmail PONTO com. Aguardamos com carinho!) 

UPDATE: A discussão sobre esse texto está supimpa lá na caixa de comentários do Marcos. A viagem até lá é recompensadora.

3 Replies to “O luxo contra o planeta”

  1. Marcos, legal, obrigada pela participação!
    “o planeta produz em excesso e a população é levada a querer consumir muito mais do que precisa”
    Esse trabalho de conscientização (que começa por nós mesmos, a gente tem que se perguntar o tempo todo se realmente precisa de algo – difícil, difícil, difícil) é que é necessário. Acho importante a gente bater muito nessa tecla e cada um de nós apresentar soluções. De repente, a solução encontrada por alguém serve para outro alguém. E é isso mesmo, eu já comentei isto várias vezes: o trabalho, neste caso, é do micro para o macro. Porque as grandes indústrias não têm interesse em diminuir sua produção e seus lucros. Os governos também não têm interesse em deixar de arrecadar os impostos relacionados… Eles não vão fazer nada por nós. Nós é que temos que tomar a frente nessa batalha.

  2. Vejo neste texto 2 pontos importantes a ser observados:
    Como o Marcos, eu também sou da área de comunicação, sou relações públicas. Como profissionais da informação dirigida, temos uma visão um pouco diferente da relação informante x informado (ou mídia e população / empresas / clientes).
    Sabemos que a influência que a mídia gera é muito grande, em alguns momentos, é quase impossível escapar dela.
    Durante anos, fomos bombardiados de informações incentivando o consumo e a despreocupação com o meio ambiente. Quantas vezes por dia você vê propagandas de automóveis na tv? Quantas vezes por dia você vê propaganda de campanhas sobre o mal que isso faz para a qualidade do ar?
    Acredito que isso faz alguma diferença!
    Outro ponto que entendo ser relevante é a questão da evolução tecnológica!
    Não se pode culpar o desenvolvimento pelos problemas ambientais. O problema é que o mundo não se preparou para estas evoluções.
    As novas tecnologias são muito importantes para o nosso bem estar! A perspectiva de vida tem aumentado a cada dia, as distancias estão cada vez melhores… sem a tecnologia, isso não aconteceria!
    Mas esta evolução foi muito brusca, e ninguém estava preparado para ela.
    Agora é que começamos a sentir que os problemas que estas mudanças causaram realmente são sérios, e que é preciso ter mais atenção para com eles!
    Sabemos que é possível criar alternativas “limpas” para a maioria dos problemas, mas essas alternativas custam caro para serem colocadas em prática. E nem sempre, as pessoas estão dispostas a arcar com estes gastos a mais!
    Bom, teria muito mais para falar, mas vcs não aguentariam mais ler!rsrsrs
    Forte abraço

  3. Felipe, eu só penso uma coisa. Vc está certo quanto a que as mudanças aconteceram de forma muito brusca, eu até concordo. E também com o fato de que a humanidade não estava preparada para isso, ou melhor: o planeta, já que, como disse um dia o nosso guia, adaptar-se ao que é bom é muito fácil.
    Agora, eu aprendi na vida a ler os acontecimentos históricos sob o prisma da pergunta “a quem interessa?”. Ou seja, pode ter sido brusco, rápido, mas não foi “sem querer”. Há sim, responsáveis por isso que está acontecendo aí e que o fizeram – e ainda estão fazendo – irresponsavelmente, visando tão só os lucros exorbitantes.
    As vezes a gente é levado, principalmente na comunicação, a achar que o “mundo”, o “mercado” ou o “capitalismo”, são entidades físicas com poderes fantásticos e que fazem o que querem e a resistência é fútil. Mas tudo começa no micro, no terreno fértil da cabeça humana, que é um negócio quase tão resistente ao emprenhamento quanto… digamos… um pudim.
    Abs.

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