Água elástica

Li primeiro via twitter do FiNS Magazine e confesso que achei de cara que era um hoax. Afinal, água elástica? A combinação de palavras tinha toda pinta de lenda de web. Retwittei pela curiosidade, mas com várias pulgas atrás da orelha, já esperando aparecer o primeiro para zoar da minha barrigada.
Mas aí eu mesma não resisti. E fui atrás para saber se era verdade. E era.
Saiu na Nature da semana passada o artigo de um grupo de pesquisadores japoneses e coreanos (Wang e colaboradores) contando como produziram gel de água (hidrogel) com propriedades elásticas. Meus conhecimentos patéticos de tecnologia de materiais me impediram de captar 100% da mensagem do artigo (tenho certeza que a Fernanda pode falar melhor sobre), mas o que li e entendi me impressionou. Afinal, o grupo diz que o hidrogel pode vir a ser um substituto super-ambientalmente correto pro plástico!
Seria o paraíso verde, se pensarmos bem. Imagine tudo que hoje é feito de plástico (que leva séculos para degradar) ser substituído por um hidrogel, basicamente água (96-97%) misturado com 2 a 3% de nanoplacas de argila, uma macromolécula “ligadora” e poliacrylato de sódio (menos de 0.4%)? Aí me veio à cabeça o 1º delírio: será que o hidrogel resistiria ao microondas? Ou derreteria? (Pensei nos potinhos usados para a gente esquentar comida.) Os próprios autores respondem no artigo: acima de 80ºC, começam a se formar bolhinhas dentro do material, o que gera a sensação de “cerâmica quente”.
hidrogel
Como faz o hidrogel. Repare na figura com o material na ponta dos dedos de uma pessoa, como se dobra bem.
Enfim, viagens à parte, a idéia de um hidrogel não é nova. Mas em geral, fazem-se hidrogéis com ligações covalentes, mais fortes, cujo lado negativo é exatamente esta força: dificulta a capacidade de se “moldar” o gel, ou de, uma vez endentado, voltar ao formato original (uma certa auto-correção). Este é exatamente a vantagem do hidrogel dos japoneses, a auto-correção. E foi conseguida por usarem ligações não-covalentes, mais maleáveis e rápidas de voltarem ao original.
Há inúmeras vantagens no uso do hidrogel. Dentre as que mais me impressionaram, está a capacidade de fazê-lo à temperatura ambiente. Outra bacana é que é baratíssimo: água e argila, basicamente. Mas também é interessante que o gel não é fácil de se misturar com outros materiais uma vez feito. Pensando nos potinhos de comida, sua marmita da manhã não “passaria” pra dentro da parede do pote. Abaixo, a figura do artigo em que eles colocaram o corante azul de metileno em pedaços do hidrogel. Tanto na horizontal como na vertical, o azul não se dilui com a parte transparente. E fizeram um coração de hidrogel, mergulharam todo num solvente orgânico, e perceberam que depois de um tempo, o solvente ocupava o lugar da água na estrutura, mas não a modificava.
hidrogel2
Bacana, não?
Vale ressaltar também que o grupo, para provar o uso biológico (mais?) do gel, colocou moléculas da proteína mioglobina por uma semana dentro do hidrogel à temperatura ambiente. A proteína reteve 70% de sua atividade catalítica. (E tenho quase certeza que foi esse experimento específico que permitiu o artigo sair na Nature. Porque aí cobre todas as grandes frentes.)
Uma invenção bacana dessas dá mais uma pontinha de esperança num futuro verde de verdade, não? A tecnologia à serviço do ambiente, um sonho ainda possível.
*Todas as figuras sob licença CC da Nature.

4 Replies to “Água elástica”

  1. Lucia, mas eu fiquei com algumas perguntas:
    – é um material biodegradável? Quer dizer, se fizerem sacolas de supermercado com esse material e elas forem jogadas fora, vira água de novo?
    – qual seria o consumo de água, um recurso que já é escasso em diversas partes do mundo, para produzir “coisas” feitas disso aí?
    – o vidro não é ótimo e mais resistente para fazer, por exemplo, potinhos de comida? 🙂 (Não sei, tô perguntando mesmo, pode ser que o impacto da fabricação do vidro seja muito maior.)
    Claro que é interessantíssimo encontrar um substituto bem menos poluente ao petróleo!

  2. Silvia, suas dúvidas são ultra-pertinentes. Eu me fiz a mesma pergunta com relação ao aumento de consumo de água. É aumentar a pressão em cima de um recurso já complicado.
    Mas penso q o hidrogel tiraria pelo menos um pouco da pressão por plástico, principalmente em coisas q não podemos nos livrar dele, como descartáveis hospitalares e laboratoriais. No caso dos potinhos de microondas, prefiro o vidro tb. Mas acho difícil preferir uma seringa de vidro, por ex. por mais “desinfectada” q ela tenha sido. Fica sempre a dúvida. Nesse caso, acho q a substituição por hidrogel viria a calhar.
    Quanto ao hidrogel ser biodegradável, eu imagino q sim… taí outro ex. bom: substituir as sacolas plásticas de supermercado.

  3. O homem nada mais que copiou da natureza, como sempre, o que acontece em águas vivas.
    A tecnologia é excelente, já existe o floc-gel das fraldas descartáveis, acho que já condenadas aqui. A água elástica apenas ganha novas formas e formatos.
    Uma técnica excelente para transportar seguramente soluçoes aquosas que num acidente não escorreriam pelo solo, infiltrariam,…
    quanto a seringa de vidro X de água elástica… O vidro inorgânico pode ser lavado com ácidos ou bases fortes, pode ser quase calcinado,… a água elástica poderá “solubilizar” substancias tóxicas, adsrover ou mesmo aBsorver patógenos.
    O mercados, custos, é quem definiram o sucesso desta tecnologia.
    Gelatinas tem sido muito usadas como veículos para aplicaçao de medicamentos.

  4. O homem nada mais que copiou da natureza, como sempre, o que acontece em águas vivas.
    A tecnologia é excelente, já existe o floc-gel das fraldas descartáveis, acho que já condenadas aqui. A água elástica apenas ganha novas formas e formatos.
    Uma técnica excelente para transportar seguramente soluçoes aquosas que num acidente não escorreriam pelo solo, infiltrariam,…
    quanto a seringa de vidro X de água elástica… O vidro inorgânico pode ser lavado com ácidos ou bases fortes, pode ser quase calcinado,… a água elástica poderá “solubilizar” substancias tóxicas, adsrover ou mesmo aBsorver patógenos.
    O mercados, custos, é quem definiram o sucesso desta tecnologia.
    Gelatinas tem sido muito usadas como veículos para aplicaçao de medicamentos.

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