Meio ambiente no Brasil: a pauta política esquecida

cop20

Em dezembro teremos a 20º Conferência das Partes (COP20) da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre a Mudança do Clima (UNFCCC, na sigla em inglês), em Lima/Peru.

Dos protocolos resultantes da CQNUMC, o mais conhecido  – e também o menos cumprido, é o Protocolo de Kyoto sobre redução dos gases de efeito estufa (GEE).

Diversos temas serão tratados:

A importância da conferência de Lima é colocar as questões na mesa para a conferência climática de 2015 em Paris”, que deve terminar com um acordo final, declarou Anne Larson, cientista do Centro Internacional de Pesquisas Florestais (CIFOR). Essas questões incluem direitos da terra para comunidades florestais e povos indígenas, ligações entre florestas e agricultura, e avanço no progresso feito na conferência climática de 2013 em Varsóvia sobre a redução de emissões por desmatamento e degradação florestal (REDD+)” (Fonte: Instituto Carbono Brasil)

Apesar de estarmos em fase pré-campanha eleitoral, vislumbra-se que o tema ambiental não deverá ser mais do que alguns parágrafos padrão nos programas dos candidatos e partidos. Até mesmo pela característica peculiar das eleições em 2014, que apresenta um quadro de possível reeleição da atual presidenta, o que fará completar um período de 16 anos de uma política no poder, com a consequente “batalha” do polo oposicionista para impedir a hipótese.

Teremos, ao que tudo indica, duas pautas apenas: a política e a social, por um lado, e a política e a econômica, por outro. Em ambos os casos, questões como as apontadas “direitos da terra para comunidades florestais e povos indígenas, ligações entre florestas e agricultura, REDD+ passarão batidas nos palanques, assim como muitas outras questões importantes, como a mobilidade urbana, questão central, hoje, nas grandes cidades que viram, em função de um modelo (política) de desenvolvimento adotado, suas ruas entupidas de automóveis poluidores.

Mais uma vez perderemos a oportunidade; mais uma vez a pauta do modelo de desenvolvimento fica para um plano que, sabemos, sempre será o último.

É nosso dever trazer ao debate político essa pauta esquecida! E assim faremo aqui no Faça a sua parte!

A morte definitiva da agricultura familiar

Transgenicos-terminator

Tramita no Congresso Nacional o Projeto de Lei n.º 268/2007, de autoria do deputado Eduardo Sciarra (PSD/PR):

Art. 1º O inciso VII e o parágrafo único do art. 6º e o caput do art. 28 da Lei nº 11.105, de 24 de março de 2005, passam a vigorar com a seguinte redação:

“Art. 6º……………………………………………………………………………………………………………………………..

VII – a comercialização de sementes que contenham tecnologias genéticas de restrição de uso de variedade, salvo quando se tratar de sementes de plantas biorreatores;

Parágrafo único. Para os efeitos desta Lei, tecnologias genéticas de restrição de uso de variedade são mecanismos moleculares induzidos em plantas geneticamente modificadas para a produção de sementes estéreis sob condições específicas.

Art. 2º Comercializar sementes que não sejam de plantas biorreatores e que contenham tecnologias genéticas de restrição de uso de variedade:

Pena – reclusão de 2 (dois) a 5 (cinco) anos, e multa.”

Art. 2º O artigo 3º da Lei nº 11.105, de 24 de março de 2005, passa a vigorar acrescido do seguinte inciso:

XI – Biorreatores: organismos geneticamente modificados para produzirem proteínas ou substâncias destinadas, principalmente, ao uso terapêutico ou industrial.

Art. 3º Revogam-se os artigos 11 e 12 da Lei nº 10.814, de 15 de dezembro de 2003.

As leis citadas, 11.505/2005 e 10.814/2003, são, respectivamente, a lei que “estabelece normas de segurança e mecanismos de fiscalização de atividades que envolvam organismos geneticamente modificados – OGM e seus derivados, cria o Conselho Nacional de Biossegurança – CNBS, reestrutura a Comissão Técnica Nacional de Biossegurança – CTNBio, dispõe sobre a Política Nacional de Biossegurança – PNB” e “Estabelece normas para o plantio e comercialização da produção de soja geneticamente modificada da safra de 2004, e dá outras providências”.

A leitura da “justificativa” é imprescindível para a compreensão do que está sendo proposto.

Para quem sabe ler entrelinhas, a Monsanto diz que “É verdade que as GURTs [Tecnologia de Restrição no Uso do Gene, ou as chamadas sementes “Terminator”, as estéreis, ou como chama o PL 268, as que tenham “restrição de uso de variedade”] oferecem certos benefícios. Essa tecnologia pode ser usada para limitar o uso ou propagação de um material genético específico na agricultura. Por exemplo, criadores de tecnologia podem investir em características benéficas e utilizar as GURT para garantir que características específicas sejam disponibilizadas apenas para produtores que desejem pagar e utilizá-las.” (leia aqui o texto da Monsanto)

A Monsanto admite a preocupação, ao dizer que “muitos expressaram preocupação de que as sementes estéreis pudessem representar uma ameaça à sobrevivência de pequenos agricultores em países em desenvolvimento, pois há séculos, esses produtores têm salvado sementes para cultivar na próxima safra.”

Eis a questão: quem adotar esse tipo de semente (e quem não irá, diante do fato de que ate para conseguir algum tipo de financiamento o produtor deve se sujeitar às exigências do sistema, dentre elas a de que compre sementes transgênicas?) se tornará eterno dependente da Monsanto (ou outros fabricantes).

A sustentabilidade que boa parte da agricultura familiar (e orgânica) consegue provém justamente da possibilidade de obter sementes da safra que está sendo colhida.

Isso será a morte definitiva da agricultura familiar.

O site “BAN TERMINATOR” é claro quando diz:

Por que Isso é um Problema?

Mais de 1,4 bilhão de pessoas, principalmente famílias de pequenos agricultores, no mundo em desenvolvimento, têm como fonte principal de sementes as guardadas de seus próprios cultivos. As sementes Terminator forçarão à dependência de fontes externas e quebrarão com as práticas de troca de sementes dos povos locais e indígenas, bem como com a prática milenar de seleção e reprodução efetuada pelos agricultores – a base para a segurança local de disponibilidade de sementes.

Se o Terminator for comercializado, a esterilidade das sementes será, provavelmente, incorporada em todas as plantas GM. Isso porque a esterilidade das sementes permite um monopólio muito mais forte do que as patentes; ao contrário das patentes, não há data de expiração, nenhuma exceção para os melhoristas e nem necessidade de advogados.”

É mais um daqueles projetos que vão tramitando “quietinhos” no Congresso.

Alimentos processados são feitos para cérebros processados.

salsicha

Atire a primeira pedra quem não gosta de salsicha. Sejamos francos: de qualquer embutido.

Dez por cento de eufemismo e noventa daquela aula de química que todo mundo matou. O eufemismo fica por conta do “carnes mecanicamente separadas”. As aulas, pela quantidade de “aditivos’ químicos adicionados para dar cor, sabor, cheiro, textura e que ninguém sabe o que significa… Ou seja, para dar aos sentidos humanos tudo o que ele precisa para apreciar embutidos. E comprar… E dar para as crianças que detestam espinafre, rúcula, abóbora, couve, chuchu, bife de fígado, cenoura, beterraba, alface, agrião… Não cabe, aqui, a quantidade de coisas que não trocaria a minha salsicha por elas…

Podem perguntar: o que tudo isso tem a ver com o meio ambiente? Como diria a grande defensora dos embutidos, “tudo a ver”!

Embutidos industrializados são a antítese da “filosofia” natural de viver.

Embutidos industrializados são a forma rápida de se alimentar. A natureza não privilegia o tempo como forma de se alimentar.

Embutidos industrializados são a forma, por excelência, do consumismo. A natureza privilegia a existência da vida. A natureza supre a necessidade, humanos a vontade criada pela propaganda.

Gostar e consumir embutidos industrializados, na realidade, é ser um ser que foi formado para aceitar com naturalidade que a destruição da natureza é algo natural.

Considerando a dita melhor técnica de escrever, a frase anterior é péssima, mas diz tudo.

Ela quer dizer, no fundo, que nossos cérebros também são processados. E processados para processar os cérebros dos nossos filhos.

E assim processamos nossos filhos para que se alimentem de embutidos industrializados. E para terem uma vida pensando que destruir a natureza é a mesma coisa que comer uma salsicha…

FALÁCIA

carro-onibus-bicicleta

Há uma grande falácia na imagem acima, propagada como solução para todos os males.

A uma, se colocássemos todas as pessoas que andam de automóvel para andar de ônibus, estaríamos simplesmente trocando o engarrafamento de automóveis pelo engarrafamento de ônibus. A imagem, maliciosamente, mostra apenas UM ônibus, mas não mostra quantos, no total, seriam necessários para a substituição proposta.

A duas, Não sei qual fábrica de bicicletas seria capaz de produzir 190 milhões de bicicletas em tão curto espaço de tempo, como a imagem parece fazer crer.

A três, não levam em consideração a realidade geográfica das cidades. Tomando Porto Alegre como exemplo, uma cidade que vive 8 meses do ano abaixo de mau tempo e com uma topografia 80% constituída de morros, não sei como alguém poderá voltar do trabalho de bicicleta “ladeira acima”. Descer é fácil, afinal, “pra baixo todo santo ajuda”. Quero ver é ter que subir a Protásio todos os dias depois de oito horas de trabalho, carregando a cria na garupa!

E seriam milhares as razões a apontar que quem pensa e divulga esse tipo “raso” de solução é gente que definitivamente não pensa a cidade.

Sem falar nos caminhões que fazem a entrega da Smart TV que todo mundo agora pode comprar… Ok! Da simples logística que mantém nosso reles afã consumista…

Há que ter clareza quanto ao que seja uma cidade. Não somos mais cidades de encontro de mercadores dos séculos XVII ou XVIII; sequer industriais empregadores de mão de obra barata dos séculos XIX e XX.

E, no entanto, continuamos a ser medievais ao resolver os problemas das nossas cidades…

Porto Alegre: de volta ao passado!

Árvore POA 02

O PASSADO DE EXEMPLO

O dia: 25 de fevereiro de 1975.

A hora: 11 horas da manhã.

O fato: Servidores da SMOV (Secretaria Municipal de Obras e Viação) chegam em frente à Faculdade de Direito (na Av. João Pessoa) para terminar de cortar as árvores que estavam “atrapalhando” a construção do viaduto Dona Leopoldina (um dos acessos). Por razões desconhecidas, deixaram uma última árvore para depois do almoço.

Nesse meio tempo, um estudante da Faculdade de Engenharia Eletrotécnica, Carlos Alberto Daryel subiu na árvore e fez história. Dois outros estudantes, Teresa Jardim e Marcos Saracol logo fizeram companhia para Carlos, evitando, assim, que a árvore fosse derrubada.

Naquela época, em plena ditadura civil-militar, o estrago estava feito. Batalhão de choque da Brigada Militar, transeuntes e estudantes transformaram a Av. João Pessoa numa praça de guerra.

Por interferência do Diretor da Faculdade de Engenharia, que negociou com as autoridades municipais, foi garantido aos estudantes que a árvore não seria cortada e que, portanto, eles poderiam descer. E assim fizeram e assim as autoridades honraram seu compromisso.

Sim, é a árvore da imagem acima. Está lá até hoje. E Carlos, em 1998, foi agraciado com o título de “Cidadão de Porto Alegre”.

Além do fato em si, o importante foi a mudança que ele causou em todos: tanto autoridades quanto os porto-alegrenses “acordaram” para a conservação do meio ambiente. Tanto que Porto Alegre se transformou na cidade brasileira de maior densidade de árvores por habitante do Brasil.

Porto Alegre, graças a essa consciência de conservação ambiental tem a que é considerada, em muitos lugares, como sendo a rua mais bonita do mundo.

goncalo-de-carvalho

Porto Alegre também foi a cidade que recebeu o 1º Fórum Social Mundial, onde “um novo mundo é possível”.

 

O PASSADO RECENTE E O PRESENTE QUE NOS ENVERGONHAM

O dia: 29 de maio de 2013.

A hora: de madrugada, às 4:00 da manhã.

O fato: Brigada Militar acorda acampados com algemas e, logo após, a prefeitura começa, ainda no escuro, a derrubar as árvores.

O motivo: a derrubada de árvores para o alargamento de uma via, obra tida como necessária para a mobilidade da Copa do Mundo de 2014.

Apenas trinta e oito anos nos separaram da barbárie. O local onde as árvores se encontravam está previsto, no Plano Diretor (isto é, em lei) para ser um parque. O Ministério Público tentou de todas as formas impedir a derrubada. Chegou a conseguir uma liminar, logo cassada pelo Poder Judiciário gaúcho. Diversas ONGs e inclusive o IAB (Instituto dos Arquitetos do Brasil – Seccional RS) apresentaram alternativas. Nada foi ouvido, lido e considerado pelas atuais autoridades.

Na rua Anita Garibaldi, para a construção de uma passagem de nível sob uma grande avenida (também obra da Copa) foram removidas 60 árvores.

 

O PRESENTE AINDA NOS ENVERGONHA GARANTINDO QUE O FUTURO SERÁ PIOR

Não bastasse isso, outra obra prevista pela Copa, vai derrubar 1.500 (mil e quinhentas) árvores na Av. Tronco.

Para nos deixar mais abismados ainda, Luiz Pinheiro, nessepost no Facebook, mostra uma alarmante destruição dos jacarandás que adornavam a Av. Osvaldo Aranha. Algo sem explicação até agora!

Para terminar, diversas árvores do Parque Farroupilha, a Redenção, apareceram marcadas com a letra “C”. Ninguém ainda descobriu a origem e o motivo das marcas. A prefeitura nega que as tenha marcado, como um aviso de “Cortar”. O certo é que a prefeitura “vendeu” o auditório Araújo Vianna para exploração pela iniciativa privada (que inclusive já o cercou, impedindo o acesso público ao seu entorno) e que há sérios problemas de estacionamento em dias de espetáculos. Corre o boato de que derrubarão as árvores para abrir espaço para estacionamento.

Já ia esquecendo: com foi construído um shopping center que margeia a rua Gonçalo de Carvalho, não fosse a manifestação dos moradores e de quase todos os habitantes de Porto Alegre, não teríamos mais a rua mais bonita do mundo, pois a prefeitura havia autorizado a derrubada de árvores no terreno do shopping para fazer um estacionamento, o que traria imediatamente a morte das árvores da rua.

O VINGADOR DO FUTURO

Como a atual administração de Porto Alegre não pode realizar a ficção de retornar ao passado para liquidar a origem daquilo que considera o mal que vive hoje (as árvores e, quiçá o Eng. Carlos), usa e abusa de autoritarismo para simplesmente acabar com a cobertura vegetal da cidade.

Voltamos ao passado, mas não ao passado que nos serviu de exemplo! Voltamos ao negro passado da calada da noite! Ao passado da troca de árvores por automóveis.

A um passado que nos envergonha!

 

Decreto Ecológico

O texto a seguir foi escrito pelo meu querido amigo Nelson Valente (@Escritor4). Nelson é professor univesitário, jornalista e escritor e, além disso, um partícipe de grande e importante parte da história recente do Brasil. Com o título acima, ele publicou, em outubro de 2010, no Jornal O REBATE, uma verdadeira aula de legislação ambiental comparada, que vale o resgate, para que não se perca nas brumas da poluição… Ei-lo:

Em 1961, o Presidente da República tinha uma certa competência legislativa exercida através de Decretos, graças à Constituição de 1946. Saulo Ramos incentivou muito Jânio a usar de tal competência, inclusive cometendo algumas inconstitucionalidades, até hoje não contestadas. Não era difícil provocar o entusiasmo de Jânio que, excessivamente inteligente, captava rapidamente idéias novas, sobretudo se fosse de interesse público. Assim, Jânio e Saulo, numa conversa a sós, sem palpiteiros, discutiram longamente um decreto em defesa da ecologia e do meio ambiente, assunto desconhecido e misterioso, inclusive no exterior. Os dois, porém e atrevidamente, soltaram a imaginação e o pensamento criativo, concluindo que era preciso regulamentar a defesa do meio ambiente. – Redija hoje, que eu assino amanhã! Hoje, sem falta, mas inclua tudo o que discutimos – Mas hoje é sábado e amanhã é domingo. É preciso colher a assinatura do Ministro da Agricultura para referendar o decreto. E talvez de outros Ministros. – Não interessa. Quero o decreto amanhã. Talvez seja o domingo o dia em que os brasileiros menos estragam a natureza. Um bom dia para assiná-lo. Claro que somente recebeu a minuta na segunda-feira e ele próprio, com estremo entusiasmo, redigiu muitos dispositivos. Editou-se o Decreto n° 50.877, em 29 de julho de 1961, um dos primeiros atos normativos, em favor do meio ambiente, editados no mundo! Para se ter a idéia do pioneirismo, a lei de proteção às águas, na Itália, foi editada muito depois, é de 1976. No Canadá, a norma equivalente é de 1970 e na Suécia, é de 1969. Na Bélgica e Holanda, o direito positivo passa a editar normas ambientais, sobretudo relativas à defesa das águas, na década de 1980, embora a Holanda tenha tratado, em lei, da poluição das águas em 1969 e a Bélgica em 1971. A França, que costuma se antecipar às legislações européias,surgiu com o regramento ambiental somente em 1971 – Lei 76-633, de 19 de julho. Na Alemanha, a lei federal, que apenas sugere precauções para evitar efeitos prejudiciais ao ambiente, é datada de 15 de março de 1974, aperfeiçoada pela lei de proteção às águas em 1976. No Japão, a disciplina legal para a punição dos crimes “relativos à poluição ambiental com efeitos adversos sobre a saúde das pessoas” é de 1970. Nos Estados Unidos, as normas de proteção às águas datam de 1972 e, na Suiça, de 1971. Na Argélia, a legislação ambiental é de 1983, quando a lei 83-03, cuida da poluição das águas, proibindo o “lançamento de substâncias sólidas, líquidas ou gasosas, agentes patogênicos, em quantidade e em concentração de toxidade suscetível de causar agressão à saúde pública, à fauna e à flora ou prejudicar o desenvolvimento econômico” (art. 99). Como se vê, o texto reproduz, vinte e dois anos depois, a norma brasileira, editada por Jânio Quadros em 1961. Na Inglaterra, centro de tantos movimentos ecologistas, a lei de Controle da Poluição surgiu somente em 1974 e cuida, sobretudo, de descarga e efluentes industriais nos esgotos públicos (art. 43), embora passe pela poluição atmosférica (art. 75) e pela poluição acústica (art. 57 a 74). Impõe-se registrar, pela importância e pela larga previsão, o Decreto n° 50.877, de 29 de julho de 1961, do Presidente Jânio Quadros, dispondo sobre o lançamento de resíduos tóxicos ou oleosos nas águas interiores ou litorâneas. O ato normativo de Jânio Quadros proibiu terminantemente a limpeza de motores de navios no mar territorial brasileiro e foi mais longe: regulou o lançamento “às águas de resíduos líquidos, sólidos ou gasosos, domiciliares ou industriais, in natura ou depois de tratados”, permitindo-os somente quando “essa operação não implique na POLUIÇÃO das águas receptoras”. Neste decreto, a palavra “poluição” ingressou no direito positivo brasileiro com o sentido que tem hoje, diverso ou mais ampliado daquele adotado pelo verbo “poluir” do nosso Código Penal. Está definida pela própria norma em seu artigo 3°, verbis: “Para os efeitos deste Decreto, considera-se poluição qualquer alteração das propriedades físicas, químicas ou biológicas das águas, que possa importar em prejuízo à saúde, à segurança e ao bem-estar das populações e ainda comprometer a sua utilização para fins agrícolas, industriais, comerciais, recreativos e, principalmente, a existência normal da fauna aquática.” Ironia do destino: quase trinta anos depois, Jânio Quadros era prefeito de São Paulo e Saulo Ramos Ministro da Justiça. Um dia Saulo visitou o ex-presidente. Entre muitos assuntos, lembraram do decreto ecológico. E lamentaram: se aquele decreto houvesse sido respeitado e aplicado, São Paulo não teria perdido os rios Pinheiros e Tietê.

 

 

A velha e combalida “sustentabilidade ambiental”

Marina da Silva, ex-ministra do Meio Ambiente no Governo Lula, e detentora de 20 milhões de votos nas eleições de 2010, lançou hoje (16/02/2013), um novo partido. Ok, injustiça dizer que “ela” lançou, dado que havia muita gente em Brasília.

Não se discute o direito de quem quer que seja de criar o que quer que queira. Não vou entrar nesse mérito, a legislação de criação de partidos políticos rege-se pela Constituição. Ponto.

A plataforma básica da REDE (apelido que ela mesma criou e que permanecerá) é a sustentabilidade. Nas suas mais variadas acepções: tem espaço para qualquer um, não é do contra nem a favor, mas prevalece, pelas manifestações (e histórico) a questão da sustentabilidade ambiental.

O Faça tem por tradição não fazer política partidária e não serei eu a romper as regras. Mas… Quando a sustentabilidade se torna bandeira partidária, quero crer que caibam algumas observações.

A primeira delas, e quem tem a vontade de me ler por aqui sabe, é a de que o modelo de sustentabilidade desenvolvido e defendido nas últimas décadas do séc. XX acabou. Não se sustenta mais. Foi absorvido pelo “sistema”.

A proposta de um mundo novo ser possível naufragou na impossibilidade – muito simples – de alimentar esse “novo mundo”. Hortinhas de cebolinhas, manjerona, salsinha, etc. em casa, não irá trazer para a mesa dos famintos o feijão, o arroz, o pão, a margarina, o leite, o café,… E eis aqui a questão: as alternativas criadas pelos utópicos de 72 não passam disso: meras utopias sem olhar o horizonte…

Marina e seu partido escrevem – e assinam embaixo – que não querem doações de empresas que fabricam agrotóxicos, dentre outras. Afora a questão ideológica de ser intestinalmente contra o capitalismo que essas empresas representam, o modelo segue o padrão de sustentar uma humanidade de 50 mil habitantes e não de 10 BILHÕES como seremos em pouco tempo.

Não há, hoje, modelo de economia capaz de resolver essa questão. Mesmo os que produzem na “forma alternativa” sabem que, todos juntos, levariam algo como 500 anos – e contando com a diminuição da população – para conseguirem alimentar adequadamente a humanidade. O argumento de que o modelo atual também não consegue não procede, pois o problema não é de produção, mas de modelo de economia que privilegia a distribuição/venda. A economia é dita uma ciência, mas uma ciência que peca na principal raiz que a sustenta: a escassez.

Economistas (quase todos formados e letrados na economia defensora do lucro) defendem com unhas e dentes a máxima de que “os recursos são escassos”. A mesma economia, no entanto, criou um sistema de distribuição petróleo-baseado. Estradas para caminhões e automóveis. E uma vida plástico-baseada.

O plástico é infinito, parece! Esse “argumento” deve ter convencido Marina a aceitar como vice, em 2010, o dono da Natura que, não seria preciso dizer, EMBALA SEUS  PRODUTOS EM PLÁSTICO” e PAPELÃO (até onde sei, as embalagens não são feitas de papel reciclado).

O que a Marina quis dizer foi: acabemos com a economia capitalista que explora e destrói a natureza. Voltemos, nós os 10 bilhões de seres humanos, para as cavernas, de onde jamais deveríamos ter saído.

A Terra não é um útero, como queriam (e talvez ainda queiram) os defensores de Gaia. A Terra não é escassa e esgotável como defendem os que disso se valem para “fazer preço”.

Sobram recursos na Terra: sobra água, sobra terra, sobra comida, sobra verde, sobra tudo! Inclusive gente nas cidades!

O que falta é acabar com a hipocrisia de achar que um modelo “velho e combalido” de sustentabilidade ambiental é a solução para o Brasil.

“Sustentabilidade é agredir o ambiente de forma mais lenta”

Lendo esse post “Madeira de Demolição – moda ou atitude” (recomendo a leitura), no blog “Arquitetando Ideias“, da arquiteta porto-alegrense Elenara Stein Leitão, deparo-me, ao final do post, com a afirmação que usei como título: “Sustentabilidade é agredir o ambiente de forma mais lenta”.

A afirmação, assim meio solta, causa, no mínimo, um certo “Opa! Peraí! Que história é essa?” Primeiro fiquei tentando juntar o tico e o teco para ver se conseguiam, pelas suas próprias pernas, formular uma ideia razoável sobre o significado da frase, as implicações e consequências que a difusão de uma ideia dessas teria em termos da luta pela conservação ambiental.

Como o tico já anda velho e cansado, o teco resolveu tomar a dianteira e foi atrás do link. O link dá nesse post, também com o título de “”Sustentabilidade é agredir o ambiente de forma mais lenta”. Na verdade, é uma entrevista com o arquiteto inglês Michael Pawlyn. Na entrevista, que também deve ser lida, surge o que para mim era, até então, um conceito desconhecido: biomimética, ou biomimetismo.

Segundo Pawlyn, biomimética (bio = vida; mimetismo = imitação, adaptação) é uma prática que “prevê que o homem imitará a natureza para encontrar soluções que vão não só resolver os problemas do mundo, mas também recuperar os ecossistemas do planeta.”

Lá pelo meio da entrevista surge a confusão com o título (difícil de entender mesmo). Ao responder a pergunta “Poderia dar um exemplo de design sustentável e outro que seja de restauração?” Pawlyn diz:

“Digamos que um prédio de escritórios usa 30% menos energia elétrica, tem 20% menos concreto e janelas que conseguem filtrar a luz solar. Essas janelas, por exemplo, misturam diferentes materiais e todo o vidro que vai parar no ambiente não é reciclável. O concreto, mesmo em menor quantidade, continua sendo concreto, que é um material cuja produção emite muito gás carbônico. A conclusão é que apesar de ser menos agressivo, o prédio não contribui para a recuperação do ambiente. Ele apenas torna a agressão mais lenta.”

Parece ter sido uma transformação de interpretação. Pawlyn diz – ao que entendi, ao menos – que os atuais métodos aplicados como sendo de “sustentabilidade” apenas tornam a agressão à natureza mais lenta. Mas não disse, salvo melhor juízo, que sustentabilidade seja  (“É”) “agredir o ambiente de forma mais lenta”.

E Pawlyn conclui dizendo:

“A conclusão é que devemos ir além do conceito comum de sustentabilidade e recuperar o sistema agredido. Temos que sair de um nível estático, em que consumimos os recursos naturais de forma inconsequente, e sermos produtores dinâmicos de recursos.”

UFA! O teco parecia não estar muito errado na sensação que teve de que algo estava mal na afirmação do título… Agredir, mesmo que de forma “mais lenta” é bem diferente de fazer ações no sentido de “recuperar o sistema agredido”.  O título nos dá a ideia de que podemos continuar a destruir o ambiente, desde que reduzamos a velocidade.

OK, reduzir a velocidade do desmatamento, da mortandade de animais, da poluição, etc., ajuda, mas não é o conceito mais importante como, a primeira leitura, poderíamos pensar.

E aí surge a biomimética como tema de casa para estudo…

A banalização do meio ambiente

Fenômeno, de certa forma, esperado. Todo movimento de “contra cultura” um dia acaba banalizado, absorvido pelo sistema. O sistema tem disso, ele sabe perceber que a melhor maneira de derrotar seus inimigos é absorvendo as suas teses e transformando-as para proveito próprio.

Foi assim com os hippies e com o judaísmo-cristianismo (ou sistema judaico-cristão). Absorvidos. Com a luta por um meio ambiente sadio e sustentável não seria diferente. Mas qual a diferença entre a cultura hippie, a  judaico-cristã e a cultura de defesa pela conservação do meio ambiente?

As três tiveram os seus profetas e os seus messias. Hippies e defensores do meio ambiente, no entanto, diferem dos judeus-cristãos no ponto mais fundamental: a crença. Ou no seu corolário, o medo.

A cultura judaico-cristã atingiu as pessoas naquilo que lhes é mais caro: a finitude. Ao perceber o medo da finitude, a cultura judaico-cristã desenvolveu a crença na vida eterna. E acabou com tudo o mais.

Verdade seja dita: a maioria está se lixando para o meio ambiente pela simples razão de que, se ele acabar – e as pessoas acabarem também – as pessoas têm uma saída que o meio ambiente não tem: a vida eterna, “ao lado direito de Deus Pai”, como dizem os cristãos!

Não existe a crença no meio ambiente porque existe a crença na vida eterna. E, agora cumpre observar, não se trata apenas da cultura “ocidental”, a ver o que os mais de 3,5 bilhões de orientais – capitaneados pela China – andam fazendo com suas economias.

E tem mais, a cultura judaico-cristã desenvolveu o capitalismo, um sistema que tem por fundamento a exploração, seja do trabalhador, seja dos recursos do meio ambiente. O capitalismo também acredita na vida eterna. A vida da Terra não tem importância alguma diante das proezas que a tecnologia capitalista é capaz de fazer. Pouco importa se as futuras gerações verão árvores somente em filmes e fotografias (?): importa que para o capitalismo as pessoas estarão vivas para aproveitarem tudo quanto é produzido. A vida eterna, nos diz a cultura judaico-cristã por meio do capitalismo.

E essa crença no capitalismo é tão forte que mesmo as culturas orientais a ela se adaptam. O capitalismo os levará ao Nirvana! Mesmo que o Nirvana seja, também, uma fotografia colada na parede de algum quarto de um espaçonave qualquer perdida na galaxia!

A cultura judaico- cristã teve – e tem – o dom de desmaterializar tudo! Menos o que mais lhe interessa: a crença! E é justamente essa crença que permitiu absorver os hippies e, agora, permite absorver a defesa do meio ambiente.

Não há ser humano ou organização humana que não tenha por princípio ser “defensora do meio ambiente”. É, “capitalisticamente” falando, bacana para “imagem” defender o meio ambiente. Vende mais, alimenta mais ainda nossa sede de eternidade.

Na verdade, o que banaliza o meio ambiente é a nossa – dos profetas e messias modernos – incapacidade de mostrar que o meio ambiente é a vida eterna. Não a vida eterna de cada um, pois dessa a cultura judaico-cristã já cuida, mas a vida eterna da humanidade. Mesmo que esse eterno não passe de cinco bilhões de anos.

Copa14, Olimp16. Maravilha! Mas, e o meio ambiente?

Não sou um sujeito super informado. Portanto, posso estar enganado ao dizer que ainda não vi nada na mídia alguma análise que relacione esses dois eventos, Copa2014 e Olimp2016, e seus possíveis impactos negativos sobre o meio ambiente.

O tese básica para a defesa da realização de uma copa do mundo em um país é que uma série de necessários investimentos em infraestrutura serão realizados. Na realidade, todas essas obras de infraestrutra – ampliação de aeroportos, estradas, tranportes, etc., sem falar na reforma/ampliação/construção de estádios de futebol – são baseadas em um modelo desenvolvimentista que privilegia o consumismo. E em eventos como esses, um consumismo exacerbado, desenfreado, que fará aumentar de forma violenta a produção de bens descartáveis e altamente poluidores, na produção e no descarte. Papel e plástico entre eles, nos mais variados formatos. Todos virarão lixo, terminados os eventos.  Bebibas, frituras,  e sei lá mais quanta coisa que gerarão um passivo de lixo a ser tratado. Mais automóveis e ônibus circulando. A lista de poluição no rastro dos eventos será grande…

Estaremos preparados para lidar com isso durante e depois?