396.8 ppm de CO2 na atmosfera

Então que semana passada pra escrever o post sobre o filme “Chasing Ice” no meu blog pessoal visitei a página do CO2 Now depois de muuuuuito tempo, e tomei um susto.

396ppm

Gente, estamos beirando os 400 ppm de CO2 na atmosfera – este será inevitavelmente um dos headlines de jornal em 2014. Pela primeira vez na história da humanidade chegaremos nesse patamar de CO2 atmosférico. Causado por nós em sua maioria, diga-se de passagem.

(Parênteses: Esta medição global do CO2 é feita pelo NOAA, com dados obtidos pelo observatório que fica no topo do Mauna Loa, na Big Island. Tudo bem que o número acima ainda é preliminar, dependendo de calibrações e outras tecnicalidades, mas já dá uma idéia do ritmo alucinado em que as coisas andam no nosso querido planetinha azul.)

[Enquanto isso, ChinaÍndia (e sabe darwin quantos outros países menos em foco na mídia…) se sufocam em poluição.]

Lembra quando eu comentei sobre o livro do Mark Lynas “Six degrees” que especulava sobre o mundo com maior temperatura? Naquele momento em 2008, tínhamos 387 ppm de CO2 na atmosfera e as especulações de inevitabilidade otimistas estavam na casa de 1 grau. Nos níveis atuais, é muito maior a probabilidade de que o planeta enfrentará um aumento de 2 graus Celsius de temperatura – já que para evitar esse aumento, o comitê científico do governo holandês sugere que os países desenvolvidos precisariam cortar 50% das emissões de CO2 até 2020. O que, no atual clima político-econômico, é quase impossível, infelizmente convenhamos.

Como bem questiona o CO2 now na sua página inicial: você está preparado para um mundo a 400 ppm?

Tristeza sem fim.

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– E lembrando mais uma vez: o limite de segurança para que possamos mitigar um pouco das mudanças climáticas sugerido por um time de super-climatologistas incluindo James Hansen, da NASA, neste artigo de 2008 (!!!!) é de 350 ppm. Da conclusão do artigo [grifo meu]: 

“Humanity’s task of moderating human-caused global climate change is urgent. (…) Thus remaining fossil fuel reserves should not be exploited without a plan for retrieval and disposal of resulting atmospheric CO2. (…) The stakes, for all life on the planet, surpass those of any previous crisis. The greatest danger is continued ignorance and denial, which could make tragic consequences unavoidable.” 

E vale sempre relembrar desse vídeo emocionante feito para a (falida) conferência de Copenhague em 2009, uma canção que continua (e pelo visto continuará por muito tempo) atual:

Impossível para mim conter as lágrimas vendo este vídeo. Afinal, mudanças climáticas são cada vez mais um tópico emocionado, que me toca profundamente. Pela insolubilidade, pela inércia com que estamos levando esta crise, pela vergonha profunda do que estamos fazendo e deixando pras futuras gerações, pela falta de ética ambiental coletiva. 

How do we sleep while our beds are burning????

Acqua

Começou no dia 31 de Março e vai até 25 de Abril, em Piacenza, na Itália, a edição 2010 do Omeofest, o Festival da Água. Abriu a programação, uma palestra do professor Masaru Emoto, um estudioso que desenvolve uma teoria sobre uma possível memória da água.
O assunto já apareceu em alguns documentários e, se ainda está em fase de debates e confronto por outros cientistas, não deixa de ser curioso e interessante o argumento tratado por Emoto. Infelizmente não encontrei nenhum material áudio visual em português, mas a série de três vídeos que segue abaixo, mostra a matéria apresentada nos programas de documentários italianos “Ulisse” e “Voyager”.
Segundo os estudos do professor Emoto, que recolhe amostras d’água em todas as partes do mundo para depois cristalizá-las e fotografá-las, existe uma analogia entre as condições ambientais e os cristais verificados nas fotografias. Adverte o professor que cada cristal é único e impossível de se repetir, mas que as características são similares. Assim, se a água viveu experiências positivas, os cristais se apresentariam em formas simétricas, perfeitos e belos. Se, ao contrário, a água tiver sido conservada em um ambiente onde as pessoas estão em competição entre si, nervosas, criando um ambiente negativo, os cristais fotografados apareceriam deformados, como se eles mesmos – os cristais – sofressem de stress. Com base a inúmeras experiências, o professor Emoto desenvolve a teoria de que a água possuiria um tipo de memória e que seria capaz de interagir com o ambiente que a circunda e com outras águas. Desse modo, a água que se encontra no nosso corpo, se boa, receberia outras informações positivas da água que se encontra no ambiente que nos circunda. Mas se a água no nosso corpo não é boa, se carregaria de informações negativas. Daí, segundo Emoto, a necessidade de nos esforçarmos em criar ambientes positivos, bloqueando os aspectos negativos.
Se a teoria de Masaru Emoto for comprovada, ficam as questões: É possível que a água que compõe o nosso corpo seja influenciada pelo ambiente? E, neste caso, também o nosso estado de ânimo e nossos sentimentos a influenciam? Influindo sobre a água podemos influir sobre o ambiente e sobre nós mesmos?
Certo é que sabemos muito pouco sobre a água, uma matéria que teria sido formada a milhões de anos, provavelmente pelo gelo cósmico trazido por cometas misturada aos gases vulcânicos, formado o primeiro efeito estufa que teria permitido a criação da vida na Terra. É, também, a única matéria que se encontra nas três formas: sólida, líquida e gasosa, com uma ligação molecular como nenhuma outra matéria.
Mas o professor Emoto nos dá uma esperança. Segundo a sua teoria, há um momento em que a água se purificaria, quando evapora e se condensa em nuvens, para reiniciar o ciclo das águas.
Os vídeos são as três partes do programa e, infelizmente, é em italiano. Mas se você quiser treinar o idioma e tiver paciência, vale à pena assisti-los.
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UP DATE:
A amiga e colaboradora deste blog Lúcia Malla deixou o seguinte comentário:
“Allan, Essa “teoria” do Emoto já foi desbancada como charlatanismo por muitos – esse foi o 1º q achei em uma googlada simples:
http://www.randi.org/jr/052303.html
Pode até soar bonitinho, mas a água não modifica suas características de acordo com a “energia positiva ou negativa” q colocamos nela. Isso já foi demonstrado, e se ele não fala isso em suas apresentações, é pq quer continuar enganando pessoas. Além do mais, ele acha q é um cientista, mas no fundo, pelos métodos q usa pra fazer sua própria “pesquisa”, não é. É pseudociência.”

Sendo a Lúcia uma cientista séria, extremamente ativa e sempre antenada, goza do meu maior respeito e admiração. Assim sendo, tenho certeza de que ela está melhor informada sobre o assunto. Mas não seria honesto da minha parte excluir o post, já que a intenção deste blog é não apenas informar, mas também fomentar debates e permitir reflexões na busca de um modo sustentável de vida. E, na medida do possível, denunciar falsos profetas e informações enganosas.
Fica, então, valendo o alerta da Lúcia.


Água elástica

Li primeiro via twitter do FiNS Magazine e confesso que achei de cara que era um hoax. Afinal, água elástica? A combinação de palavras tinha toda pinta de lenda de web. Retwittei pela curiosidade, mas com várias pulgas atrás da orelha, já esperando aparecer o primeiro para zoar da minha barrigada.
Mas aí eu mesma não resisti. E fui atrás para saber se era verdade. E era.
Saiu na Nature da semana passada o artigo de um grupo de pesquisadores japoneses e coreanos (Wang e colaboradores) contando como produziram gel de água (hidrogel) com propriedades elásticas. Meus conhecimentos patéticos de tecnologia de materiais me impediram de captar 100% da mensagem do artigo (tenho certeza que a Fernanda pode falar melhor sobre), mas o que li e entendi me impressionou. Afinal, o grupo diz que o hidrogel pode vir a ser um substituto super-ambientalmente correto pro plástico!
Seria o paraíso verde, se pensarmos bem. Imagine tudo que hoje é feito de plástico (que leva séculos para degradar) ser substituído por um hidrogel, basicamente água (96-97%) misturado com 2 a 3% de nanoplacas de argila, uma macromolécula “ligadora” e poliacrylato de sódio (menos de 0.4%)? Aí me veio à cabeça o 1º delírio: será que o hidrogel resistiria ao microondas? Ou derreteria? (Pensei nos potinhos usados para a gente esquentar comida.) Os próprios autores respondem no artigo: acima de 80ºC, começam a se formar bolhinhas dentro do material, o que gera a sensação de “cerâmica quente”.
hidrogel
Como faz o hidrogel. Repare na figura com o material na ponta dos dedos de uma pessoa, como se dobra bem.
Enfim, viagens à parte, a idéia de um hidrogel não é nova. Mas em geral, fazem-se hidrogéis com ligações covalentes, mais fortes, cujo lado negativo é exatamente esta força: dificulta a capacidade de se “moldar” o gel, ou de, uma vez endentado, voltar ao formato original (uma certa auto-correção). Este é exatamente a vantagem do hidrogel dos japoneses, a auto-correção. E foi conseguida por usarem ligações não-covalentes, mais maleáveis e rápidas de voltarem ao original.
Há inúmeras vantagens no uso do hidrogel. Dentre as que mais me impressionaram, está a capacidade de fazê-lo à temperatura ambiente. Outra bacana é que é baratíssimo: água e argila, basicamente. Mas também é interessante que o gel não é fácil de se misturar com outros materiais uma vez feito. Pensando nos potinhos de comida, sua marmita da manhã não “passaria” pra dentro da parede do pote. Abaixo, a figura do artigo em que eles colocaram o corante azul de metileno em pedaços do hidrogel. Tanto na horizontal como na vertical, o azul não se dilui com a parte transparente. E fizeram um coração de hidrogel, mergulharam todo num solvente orgânico, e perceberam que depois de um tempo, o solvente ocupava o lugar da água na estrutura, mas não a modificava.
hidrogel2
Bacana, não?
Vale ressaltar também que o grupo, para provar o uso biológico (mais?) do gel, colocou moléculas da proteína mioglobina por uma semana dentro do hidrogel à temperatura ambiente. A proteína reteve 70% de sua atividade catalítica. (E tenho quase certeza que foi esse experimento específico que permitiu o artigo sair na Nature. Porque aí cobre todas as grandes frentes.)
Uma invenção bacana dessas dá mais uma pontinha de esperança num futuro verde de verdade, não? A tecnologia à serviço do ambiente, um sonho ainda possível.
*Todas as figuras sob licença CC da Nature.

Conferência de Copenhague (COP-15): uma história que até hoje não deu certo! – V

Temos que ouvir (ler) outras opiniões, mesmo que discordantes da opinião majoritária. Mais ainda em se tratando de um assunto tão complexo e polêmico. Recebi o texto via mail (grupo de educação ambiental) e divulgo. Não veio acompanhado de fonte, apenas do autor.
“Meio ambiente
Mundo vai entrar em período de resfriamento global, diz cientista do IPCC
Agostinho Rosa – 10/09/2009
Segundo o pesquisador, “nos próximos 10 ou 20 anos” uma tendência de resfriamento natural da Terra irá se sobrepor ao aquecimento causado pelos humanos. [Imagem: NOAA]
Discurso de um crédulo
“Eu não pertenço ao time dos céticos.” Em princípio, não haveria motivos pelos quais Mojib Latif começasse assim sua apresentação durante a Conferência Mundial do Clima, realizada pela ONU em Genebra, na Suíça.
Afinal de contas, ele não estava fazendo uma apresentação para mais de 1.500 dos principais cientistas do clima do mundo todo por acaso – ele próprio é um dos autores diretos dos estudos feitos pelo IPCC, o órgão da ONU que vem alertando há anos sobre o aquecimento global e a participação do homem nesse aquecimento.
Ser considerado um cético, nesse caso, significa não concordar com as conclusões dos estudos feitos pelo IPCC, seja uma discordância total ou mesmo parcial. E, ao longo dos anos, à medida que mais e mais cientistas “aderiam” às conclusões dos estudos patrocinados pela ONU, contrariar essas conclusões passou a ser encarado como uma postura política, na qual os argumentos científicos foram deixando rapidamente de serem importantes.
Latif, aparentemente temendo ser relegado ao “ostracismo científico” reservado a quem tem ousado desafiar a postura oficial, achou melhor se antecipar a qualquer acusação.
Duas décadas de resfriamento global
E não é para menos. As conclusões que ele iria apresentar a seguir, baseadas nos seus estudos mais recentes, aparentemente contrariam tudo o que o IPCC tem divulgado.
Segundo Latif, “nos próximos 10 ou 20 anos”, uma tendência de resfriamento natural da Terra irá se sobrepor ao aquecimento causado pelos humanos. Se ele estiver correto, o mundo está no limiar de um período de uma ou duas décadas de resfriamento global. Somente depois, diz o cientista, é que o aquecimento global se fará novamente observável.
Mudanças climáticas naturais
O resfriamento seria causado por alterações cíclicas naturais nas correntes oceânicas e nas temperaturas do Atlântico Norte, um fenômeno conhecido como Oscilação do Atlântico Norte (NAO – North Atlantic Oscillation) .
Opondo-se ao que hoje pode ser considerado a ortodoxia das mudanças climáticas e do aquecimento global, o pesquisador do IPCC afirmou que os ciclos oceânicos foram provavelmente os grandes responsáveis pela maior parte do aquecimento registrado nas últimas três décadas. E, agora, o NAO está se movendo rumo a uma fase mais fria.
Os dados sobre os ciclos naturais oceânicos são suficientes para explicar todas as recentes variações nas monções na Índia, nos furacões do Atlântico, o degelo no Ártico e vários outros eventos.
Degelo natural
E Latif não está sozinho em suas conclusões contestadoras. Vicky Pope, do Serviço Meteorológico do Reino Unido, lançou uma torrente de água gelada na estrela mais recente dos defensores do aquecimento global antropogênico: a redução da camada de gelo do Ártico.
Segundo ele, a perda dramática de gelo na cobertura do Ártico é parcialmente um produto de ciclos naturais, e não do aquecimento global. Relatórios preliminares sugerem que o degelo neste ano já é muito menor do que foi em 2007 e 2008.
Fim do aquecimento global?
“As pessoas vão dizer que isso significa o fim do aquecimento global. Mas nós temos que faz esses questionamentos nós mesmos, antes que outras pessoas os façam,” defendeu-se novamente Latif.
O reconhecimento da importância dos fatores naturais sobre tantos eventos antes atribuídos ao aquecimento global causado pelo homem equivale a assumir que os modelos climáticos não são tão bons quanto se desejaria para predizer eventos de curto prazo.
“Em muitos sentidos, nós sabemos mais sobre o que irá acontecer em 2050 do que no próximo ano,” admite Pope.
A afirmação tem mais sentido do que possa parecer à primeira vista. Os modelos climáticos, a grosso modo, são projeções estatísticas a partir de eventos passados. Isso os torna adequados para prever tendências, embora haja muito menos certeza sobre um ponto específico na curva de projeção – vale dizer, sobre a previsão para um ano específico.
Perda de credibilidade do IPCC
Mas isto não alivia muito as coisas. Os modelos do IPCC têm sido alvo de uma sequência de críticas (1, 2, 3) que podem minar muito mais a credibilidade das recomendações do órgão do que de suas conclusões científicas.
A rigor, a descoberta de inconsistências e incompletudes nos modelos climáticos é algo mais do que previsível e verdadeiramente faz parte do desenvolvimento do trabalho científico. Nenhum cientista jamais defenderia que esses modelos sejam completos ou acabados. Na verdade, essas críticas e defeitos são até mesmo desejáveis, na medida que demonstram que o conhecimento está fazendo progressos.
O grande problema é que esses modelos e seus resultados têm sido rotineiramente apresentados como fatos definitivos ao grande público, principalmente através do que se convencionou chamar de “catastrofismo climático” – uma série de projeções alarmistas, feitas por cientistas, que têm chegado ao noticiário mas que pouco têm a ver com ciência.
O próprio fato do IPCC apresentar projeções para o ano 2100 sempre foi alvo de críticas dentro da comunidade científica, já que nenhum outro campo das ciências se atreveria a tanto. E o campo específico da meteorologia sempre afirmou que a precisão das suas previsões está na exata medida do volume de dados coletados e do período de tempo coberto pela previsão – quanto mais curto o prazo, mais precisa seria a previsão.
Com isto, torna-se muito mais problemático convencer qualquer um de que as conclusões dos modelos climáticos acertarão as previsões para daqui a 50 ou 100 anos se eles não conseguem dar conta de eventos de curto prazo. Será mais difícil convencer sobretudo os políticos, que têm o poder para iniciar atitudes concretas de combate aos efeitos do atual estilo de desenvolvimento grandemente danoso ao meio ambiente, cause ele aquecimento global ou não.”

Heavy metal fish

Apesar do título parecer nome de banda indie e ter a cara de título sugerido pelo Tiagón, este não é um post de bereteios criativos como vocês encontram pelas bandas de lá. É infelizmente bem concreto: o teor de mercúrio, um metal pesado, no peixe nosso de cada dia.
Afinal, saiu esses dias um estudo feito aqui no Hawaii em que os pesquisadores mediram a quantidade de mercúrio em diversos peixes que são vendidos no mercado – e consequentemente consumidos pelas pessoas. O que eles descobriram foi muito interessante.
O mercúrio é um metal pesado que chega ao mar via despejos de poluentes nos rios ou pela atmosfera. O mercúrio da atmosfera vem de basicamente 2 fontes: erupções vulcânicas (portanto fonte natural) e poluição (fonte antropogênica: queima de carvão nas usinas termelétricas ou atividades de mineração, em sua maioria). Uma vez no mar, o mercúrio-metal-pesado é convertido por bactérias e elementos do plâncton a metil-mercúrio, e este sim é o agente causador de todos os problemas neurotóxicos que a gente ouve por aí associados com ingestão de mercúrio há tempos.
O metil-mercúrio é facilmente assimilado pelos seres vivos, incluindo a gente. Uma vez no organismo, ele se acumula e gera stress oxidativo nas células, principalmente no cérebro. O organismo basicamente não dá conta de tão poderoso agente, e à medida que a concentração de mercúrio começa a subir, o organismo começa a não ser capaz mais de se desintoxicar sozinho, porque as enzimas responsáveis pela desintoxicação de metais pesados que a gente tem começam a ser inativadas. Com o tempo, o acúmulo exagerado pode levar a problemas neurológicos graves e de comportamento. (Exemplo clássico aqui.)
Nossa principal “fonte” de mercúrio direta é a dieta, principalmente via peixes. O metil-mercúrio tende a se bioacumular na cadeia alimentar, o que gera elevados índices de tal composto pesado nos animais do topo da cadeia. Por conta dessa bioacumulação, o FDA americano já há algum tempo recomenda que mulheres grávidas e crianças pequenas diminuam a quantidade de peixe ingerida, principalmente das espécies mais pelágicas, para evitar que cérebros ainda em processo de formação já sofram com os danos causados pelo acúmulo de metil-mercúrio. Mas, que peixes podem e não podem ser ingeridos?
Foi em cima dessa pergunta que muitos pesquisadores se debruçaram – e vêm se debruçando em cada vez mais lugares no mundo. Aqui no Havaí, este tópico tem aparecido com cada vez mais frequência nos jornais locais, o que demonstra uma preocupação real em responder a pergunta.
Daí que o estudo publicado no PNAS há algumas semanas traz em si uma revelação interessantíssima para o manejo da pesca – e para o nosso nível de contaminação por mercúrio, diga-se de passagem. Os pesquisadores descobriram que os peixes que se alimentam mais ao fundo acumulam mais mercúrio em sua carne, enquanto os que comem mais no raso acumulam menos. As implicações desse achado são enormes – e a repercussão já começou.
Boa parte da pesca industrial está baseada em peixes pelágicos carnívoros (ou seja, de topo de cadeia alimentar), que se alimentam no fundo: cações/tubarões, atuns, peixes-espada. Estes peixes possuem níveis de mercúrio mais elevados que os demais, como o dourado, que se alimenta mais próximo da superfície. Mas não somente peixes: os pesquisadores também mediram os níveis de mercúrio em crustáceos, lulas e polvos, e constataram que nestes animais o mesmo padrão existe: quanto mais fundo o animal vive, mais mercúrio no seu sistema.
dourado
atum
O dourado acima possui menos mercúrio acumulado em seu organismo que a espécie de atum abaixo. Ambos são consumidos por nós, espécie humana.
E para mim, a frase que o pesquisador-líder do estudo disse no press-release da universidade é a “moral da história”:

“O fundo do mar é remoto, difícil de ser estudado e muitas vezes ignorado, mas nossos resultados claramente mostram como a biologia está diretamente conectada aos interesses humanos, tanto de pesca como de saúde. Alguns dos peixes que a gente se delicia na mesa de jantar crescem numa dieta de criaturas estranhas e exóticas a mais de 1,000 pés de profundidade no mar.”

Pense nisso na próxima ida à peixaria.

O Ano Internacional da Astronomia e a Natureza: E pour si mouve!


Agosto de 1609. Um já velho (para os padrões da época) senhor de 45 anos aponta sua luneta para o céu. E transforma o mundo. “Ocorre a mais extraordinária série de descobertas que algum homem jamais realizou em tão pouco tempo”1. “[…] o Universo medieval recebera seu golpe mortal. O triunfo épico da revolução copernicana sobre o pensamento ocidental havia começado”2.
E ainda não terminou. Quatrocentos anos depois, a ONU faz de 2009 o Ano Internacional da Astronomia. Quatrocentos anos depois de um homem ter finalmente provado, com evidências materiais, irrefutáveis, tudo quanto pairava no mar das teorias.
Por três anos da minha vida passei muitas noites – quase todas as possíveis – a olhar as estrelas pelo telescópio da UFRGS. Noites frias e solitárias. Acompanhavam-me o chimarrão e o poncho. À época, ainda “guri”, havia incorporado o espírito dos grandes pioneiros da moderna ciência: Copérnico, Tycho Brahe, Kepler, Galileu e Newton. Enquanto o telescópio fazia seu trabalho, eu sonhava com grandes descobertas.
E foi nessas noites que senti algo que até hoje guardo comigo: um permanente estado de perplexidade e admiração pela natureza. E o sentido de quanto somos ínfímos, pequenos. Mínimos. Finitos, em contrapartida à grandeza do Universo. O Universo é algo maravilhoso, indescritível. Felizmente não sucumbi ao mero ato de transformá-lo em números vomitados por computadores. Por vezes, e não poucas, senti-me tentado a crer que realmente existe algo muito maior para ter criado tamanha perfeição.
Fui salvo pelo tempo. Com o tempo, “ver” o Universo torna-se “cansativo”. Por maior que seja o encantamento; por mais que venhamos a saber a sua origem; a sua evolução e a sua composição, sentimos – senti – que é pouco. Afinal, são imagens de um passado ao qual não pertencemos. Sentimos – senti – vontade do presente.

E o presente se mostrou mais deslumbrante ainda. A Terra é mais infinita que o Universo, pasmem! É mais cheia de descobertas a serem descobertas que o próprio Universo. Por mais que olhemos para o Universo, jamais ele nos dirá o que há na Terra. Poderá, quem sabe, nos dizer sobre a origem da Terra e seu futuro, mas jamais nos dirá sobre a vida que há na Terra!
Um metro cúbico de qualquer oceano ocuparia a vida inteira de qualquer cientista, muito mais que qualquer ano-luz cúbico do Universo. E sequer descobrimos, ainda, o homem, esse ser mais que imperfeito; mas mais que perfeito na sua capacidade de ver todas as dimensões da vida, das dimensões do Universo: do macro ao micro; das estrelas e galáxias ao átomo e suas partículas. Infelizmente, imperfeito para ver seu próprio tamanho, o tamanho da Natureza que o cerca.
“E pour si mouve” (“eppur si muove”) teria dito Galileu, baixinho, ao final da leitura do texto da abjuração que lhe impuseram os inquisidores da Igreja Católica, em 22 de junho de 1633, como a dizer “olhem para o Universo, mas não esqueçam que a vida é aqui, nessa Terra que, no entanto, se move”.
Olhar para o Universo pode nos fazer olhar para a Natureza ao nosso redor. Vamos aproveitar o Ano Internacional da Astronomia para, quem sabe, aprender a dar o verdadeiro valor que a Terra tem.
E, no entanto, ela se move!
Notas:

1Dicionário dos filósofos. Diretor da publicação Denis Huisman. São Paulo: Martins Fontes, 2001. p. 420.

2Tarnas, Richard. A epopéia do pensamento ocidental: para compreender as idéias que moldaram nossa visão de mundo. 7ª ed. – Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2005. p.281.

Capra e o Da Vinci ecológico


“Em primeiro lugar, queria agradecê-lo por ter escrito O Tao da Física. Assim que terminei de ler pensei que tinha que fazer isso e agora tenho a oportunidade. Obrigado, sr. Capra.” O deslumbramento do jovem que sentava imediatamente atrás de mim no Teatro Eva Herz, da Livraria Cultura da Paulista, era evidente e, por que não, comovente. Muitos dos que o aplaudiram provavelmente queriam fazer o mesmo e rolou uma identificação imediata. O rapaz foi aplaudido por uma gente sorridente, bonita, harmoniosa, em comunhão – entre si e com com Fritjof Capra, que deu palestra sobre seu livro A Ciência de Leonardo da Vinci (lançamento da editora Cultrix).
Eu logo me identifiquei e relaxei um pouco. Estava tenso por ter que entrevistar Capra para a revista e o site do Greenpeace e também por voltar à rua depois de tempos para exercitar como se deve o ofício de jornalista. Uma coisa influênciou na outra, mas na hora H, foi que foi. Dei até sorte, porque os outros dois jornalistas que compartilhariam comigo os escassos 30 minutos disponíveis para entrevista não apareceram. Pude gravar tranquilo minhas 7 perguntas sobre ecologia, meio ambiente, sustentabilidade, as quais ele respondeu sem rodeios e com firmeza, não deixando transparecer nenhum incômodo por falar de coisas que não eram bem a razão dele estar ali. Se bem que em termos. Capra é ecologista de longa data e Da Vinci, idem.
Ao contrário da trupe do bem que enfrentou chuva e engarrafamento para ouvi-lo falar, Capra é sisudo, circunspecto, um tanto quanto impaciente, mas sempre elegante e atencioso. Conheço bem o tipo, já tive chefe austríaco no Greenpeace. Me atendeu prontamente quando fui apresentado e respondeu com calma e prestatividade às minhas indagações feitas num inglês inseguro. Da mesma forma atendeu a uma dupla de ciclistas que, pouco antes da palestra começar, entregou a ele um favo de mel, e ouvi atentamente como fazia para degustar aquilo. “É colocar na boca e mastigar de leve como chiclete. Mas dá pra engulir, sem problema, é só cera”, explicou um deles. Tirou fotos com alguns, autografou dezenas de livros (com um simples “Para fulano”, mas enfim…) para a legião de estudantes, artistas, leitores casuais, empresários, escritores e até uma policial militar que lotaram o teatro.
Em uma hora de palestra, com uma apresentação de slides trazendo citações e desenhos de Leonardo da Vinci, o escritor de 69 anos revelou aspectos ambientalistas no artista toscano que eu sinceramente desconhecia solenemente. O próprio Capra disse ter se surpreendido ao achar a seguinte frase nos alfarrábios consultados :

As virtudes da grama, das pedras e das árvores não se encontram em seu ser porque os seres humanos as conhecem… A grama é nobre em si própria sem a ajuda de linguagens ou letras humanas.

É bom observar que as anotações nas quase 6 mil páginas estudadas por Capra fora feitas pelo gênio renascentista em italiano da época e escritas da direita para a esquerda, como os árabes fazem – Da Vinci era canhoto e inovou até na hora de por seus pensamentos no papel. Imagina a dificuldade para quem tem que destrinchar os textos hoje.
Enfim, o que chamou a atenção de Capra foi que Da Vinci antecipou em séculos o que se chama hoje de deep ecology: todos os seres vivos fazem parte de uma grande teia de vida, vivemos numa imensa gaia, e nenhuma espécie é mais importante do que outra. A ciência deve andar em harmonia com a natureza, não dominá-la.
Para Fritjof Capra, físico teórico e escritor que há anos promove a educação ecológica, principalmente para crianças e adolescentes, foi um achado e tanto. A investigação sobre o mestre italiano lhe mostrou que os desenhos dele eram complexos diagramas científicos, porque para estudar a natureza, era preciso desenhá-la; e para desenhá-la, era preciso estudá-la. Combinou ciência, estética e ética como ninguém, quase sempre orientada por uma filosofia ecológica lato sensu. Dá o que pensar saber que Da Vinci ficou obscuro por séculos. Que seja fonte de inspiração nesses novos tempos que se avizinham, com mudanças importantes acontecendo no mundo. Obama na Casa Branca, sustentabilidade e ecologia na ordem do dia, todo mundo pensando no que pode fazer para contribuir.
As perguntas da platéia, ao final da palestra, refletiram essa consciência coletiva de que algo precisa ser feito para mudar o estado das coisas e Capra acabou discutindo ali muito do que falou em nossa entrevista: Obama, o papel da sociedade civil na consolidação desse outro mundo possível, as chances de termos um mundo realmente sustentável. Publico aqui assim que sair a revista do Greenpeace, valeu?
Enquanto isso, curta uma das aventuras do Riuston, o valente entregador da livraria Cultura. O blog é divertido também. Descobri navegando pela internet, pra juntar essa coleção de links deste blog…

Tic tac


Wake Up, Freak Out é uma animação bem bolada sobre a atual situação do planeta. Bem didática e com muita informação sobre aquecimento global, derretimento das geleiras, concentração de CO2 na atmosfera, perda de biodiversidade e quetais. O quadro geral que pinta não é dos melhores pra nós. Talvez já estejamos próximos demais do ponto de não-retorno das mudanças climáticas. Aí, meu caro, é se preparar pra se adaptar da melhor maneira possível ao que virá. E sabe-se lá o que vem por aí…

Wake Up, Freak Out – then Get a Grip from Leo Murray on Vimeo.
(se vc não entendeu muito bem o que é dito no vídeo, leia aqui o script)

O lado bom da crise

Esta semana foi pra lá de corrida pra mim no Greenpeace, por conta de uma coletiva que ajudei a organizar para divulgar o relatório Ciclo do Perigo, sobre os impactos da produção do combustível nuclear no Brasil. Mas valeu à pena: o evento rolou hoje e foi um sucesso, com ampla divulgação.
O relatório trouxe uma denúncia de contaminação da água potável de Caetité, no sertão baiano, por urânio, minério que é extraído da região pela estatal Indústrias Nucleares do Brasil (INB). Os casos de câncer e outras doenças são altíssimos por lá e a empresa diz que tá tudo bem (novidade…). O caso ganha ainda mais importância se levarmos em conta que o governo Lula pretende ampliar o programa nuclear brasileiro, construindo não só Angra 3 mas também outras dezenas de usinas pelo país, o que ampliaria a mineração de urânio no país – principalmente no interior da Bahia e no Ceará.
A denúncia do Greenpeace mostra que a energia nuclear é suja do início (mineração de urânio) ao fim (lixo nuclear), e que os defensores dessa tecnologia não estão nem aí para o bem-estar das pessoas e do meio ambiente.
Mas se o bom-senso não tem força para interromper essa loucura nuclear, a crise financeira provavelmente terá. Os sinais de que o tal renascimento da indústria nuclear em todo o mundo não passa de um grande esforço de marketing são cada vez mais evidentes. A própria Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) já admite isso. Semana passada, um economista da instituição aconselhou o governo do Quênia a estudar melhor as necessidades energéticas de longo prazo do país antes de construir usinas nucleares, afirmando que poderá “encontrar muitos problemas em financiar uma planta nuclear devido às delicadas condições financeiras internacionais”.
Já o secretário de Energia dos Estados Unidos, Samuel Bodman afirmou durante visita à França que a crise financeira global pode ter impacto no tal “renascimento nuclear”. Segundo ele, projetos de longo prazo como a construção de usinas atômicas “são aqueles que serão os mais difíceis de financiar”.
Para entender porque a energia nuclear não é solução para as necessidades energéticas do mundo, ainda mais agora em tempos de recessão mundial, sugiro a leitura do artigo Nuclear isn’t necessary (Nuclear não é necessário), de Arjun Makhijani, presidente do Instituto para Pesquisa em Energia e Meio Ambiente, publicado no início de outubro no site da Nature. Makhijani é também autor do livro Carbon-Free and Nuclea-Free: A Roadmap for US Energy Policy (Sem Carbono e Sem Nuclear: um Mapa do Caminho para a Política Energética Americana).
A hora de pressionar políticos e empresas é agora! O dinheiro vai ficar cada vez mais curto e desperdiçá-lo em projetos que nada contribuem para o nosso desenvolvimento sustentável não é admissível.

Tecnologia e Meio Ambiente: há futuro na ciência?

Este post faz parte do ciclo Debates Ambientais do Faça a Sua Parte.

Picada de cobra se cura com veneno de cobra.

Consumo consciente e atitudes eco compatíveis são fundamentais a uma necessária nova política ambiental, mas o comportamento humano é moldado aos poucos e produz uma forte resistência às mudanças. Sem o intervento da ciência será impossível reverter a atual situação de degrado e poluição.

Como instrumento, a ciência não pode ser a vilã da devastação dos recursos naturais, nem da crescente pobreza e marginalidade de boa parte da população mundial. Um crescimento que vem acompanhado de novos e equivocados padrões de consumo e produção, o que só faz aumentar o desperdício dos recursos, além de gerar resíduos e substâncias poluentes. O problema se dá porque ciência e tecnologia não são politicamente neutras. Mas não só: a atual dinâmica de competição, com ganhadores e perdedores, só faz aumentar a crise sócio-ambiental, transferindo todas as reservas e esforços à busca do crescimento econômico.

Na situação que vivemos de desigualdade social, onde uma minoria consome a maior parte dos recursos naturais, reflete uma distribuição heterogênea de renda e de ativos produtivos e acaba restringindo as políticas de desenvolvimento dos países pobres. Esse problema não pode ser resolvido com soluções tecnológicas. É preciso ação política. E é nesse ponto que podemos fazer a diferença, debatendo, propondo – exigindo! – o fluxo de tecnologia e pressionando os regimes políticos atuais, fortemente orientados na lógica do mercado e ao crescimento a qualquer preço. É necessário que o poder político retome para si a responsabilidade do crescimento, que hoje encontra-se nas mãos de agentes externos.

A ciência terá grande participação nessa nova ordem mundial que começa a se formar, aprimorando e difundindo o correto manejo dos recursos disponíveis. Para tanto, o sistema de competição deve ser substituído por um outro, o da cooperação. De pouco tem servido as intermináveis reuniões internacionais sobre o meio ambiente. A despeito da argumentação dos donos do poder econômico, de que faltam inequívocas evidências científicas do efeito da produção sobre os problemas ambientais, o meio ambiente não pode ser excluído dos conceitos econômicos, políticos e sociais. O desenvolvimento sócio-econômico depende exclusivamente de quem controla os recursos disponíveis e não do volume desses recursos. Isso está errado.

A ciência sem política é uma ciência para poucos.