Aquecimento na Roda

O tema deste mês (e de início de abril) do blog Roda de Ciência é o aquecimento global. Como participante daqui e de lá, aproveito para um jabá básico: vale a pena dar uma passada por lá para ouvir um pouco o que meus amigos cientistas supimpas têm a dizer sobre o tema. A discussão em geral é de alto nível. Confira.

A Torre Eiffel apagou suas luzes por cinco minutos, em ato contra o aquecimento global

Fonte: Estadão/ciencia

O Painel Intergovernamental sobre a Mudança Climática traz uma visão sombria do estado atual do mundo e faz previsões dramáticas para o meio ambiente
Seth Borenstein, AP
AP

PARIS – O alerta sobre aquecimento global, emitido pelo principal comitê científico internacional encarregado de analisar o problema, é direto e brutal: “o aquecimento do sistema climático é inequívoco”, a causa é “muito provavelmente” humana e o efeito “continuará pelos próximos séculos”.
Na divulgação oficial de um relatório de 21 páginas sobre o que é o aquecimento global, e como ele ocorre – mas sem dizer ao mundo o que fazer a respeito – o Painel Intergovernamental sobre a Mudança Climática (IPCC) oferece uma visão sombria do estado atual do meio ambiente e faz previsões ainda mais preocupantes a respeito do futuro.

“O aquecimento do sistema climático é inequívoco, como agora é evidente, graças a obervações de elevações na temperatura global média do ar e dos oceanos, vasto derretimento do gelo e das neves, e elevação do nível médio do mar em escala global”, diz o texto.
O presidente do painel, o cientista indiano Rajendra Pachauri, referiu-se ao relatório como “um documento muito impressionante, que avança vários passos em relação à pesquisa prévia”. Uma importante cientista do governo dos Estados Unidos, Susan Solomon, declarou, durante o lançamento, que “não pode mais haver questão de que o aumento nos gases do efeito estufa é dominado pelas atividades humanas”.
O relatório afirma que já se pode atribuir às emissões provocadas pelo homem os seguintes problemas: menor número de dias frios; noites mais quentes; ondas de calor letais; enchentes e chuvas pesadas, secas devastadoras e um aumento na força de tempestades e furacões, principalmente no Oceano Atlântico.
E se você acha que a situação já é ruim, os efeitos durante o século 21 “serão, muito provavelmente, maiores que os observados durante o século 20”.
Previsões


O comitê prevê uma elevação de temperatura de 1,1º C a 6,4º C até 2100. Esta é uma faixa de variação maior que a que constava do relatório anterior, de 2001, mas o comitê também diz que a melhor estimativa fixa a mudança entre 1,8º C e 4º C.
No que diz respeito ao nível do mar, o relatório projeta elevações de 18 a 58 centímetros. Mas essa faixa pode ser ampliada em outros 10 a 20 centímetros se do derretimento das capas de gelo sobre as regiões polares continuar.

Além disso, diz o texto, não importa quanto a civilização corte suas emissões de gases-estufa, o aquecimento global e a elevação dos mares prosseguirão pelos próximos séculos.
“Não é uma coisa que dê para parar. Simplesmente teremos de viver com isso”, disse um dos co-autores do trabalho, Kevin Trenberth, do Centro Nacional de Pesquisas Atmosféricas de Boulder (EUA). “Estamos criando um planeta diferente. Se você voltar daqui a 100 anos, teremos um clima diferente”.
Cientistas temem que os políticos interpretem mal a mensagem e simplesmente desistam de fazer algo a respeito. Isso seria errado, declarou Trenberth. O que é necessário é reduzir as emissões e, ao mesmo tempo, adaptar as populações a um mundo mais quente, e com um clima mais maluco.
A questão aqui é destacar o que acontecerá se não fizer mos nada e o que acontecerá se fizermos algo“, disse outro co-autor, Jonathan Overpeck. “Posso dizer que, se decidirmos não fazer nada, os impactos serão muito maiores do que se fizermos alguma coisa”.

Kerry Emanuel

Para quem não sabe, uma das 100 pessoas mais influentes de 2006 pela eleição da revista Time foi um meteorologista: Kerry Emanuel, professor do MIT, em Boston. E por que ele está lá? Porque seus estudos tentam entender o motivo pelo qual os furacões têm se intensificado no mundo, principalmente no Atlântico. O artigo que Kerry Emanuel publicou na Nature (link em pdf) meses antes do Katrina destroçar New Orleans tornou-se literatura básica para qualquer discussão científica decente sobre aquecimento global e furacões que se queira ter. Ele calculou, teorizou e hoje é citado pelos 5 cantos do planeta como o grande idealizador do modelo que dita que a atividade humana é, em parte, responsável pela intensidade dos furacões.

Ano passado, eu assisti a um programa no Discovery Channel que hipotetizava sobre um super-tufão em Hong Kong – e lá estava Emanuel explicando tintim por tintim como essa tragédia se desenvolveria na atmosfera e o que causaria nos arranha-céus da cidade.

Essa semana, Chris Mooney está blogando diretamente da Reunião Anual da Associação Americana de Meteorologia, e relatou em seu blog a palestra de Kerry Emanuel. Um pedaço me saltou aos olhos:

“Emanuel was a party to that consensus statement, but of course he has his own views. And it’s clear that although at present he hasn’t won over all of his fellow scientists, he still thinks global warming is playing a significant role in increasing the power dissipation of hurricanes, especially in the Atlantic. (Emanuel showed yesterday that the data are much more contested for the Northwest Pacific.)”

Embora todos os pesquisadores sejam relutantes em dizer preto no branco que a o aquecimento global é o responsável (direto ou indireto) pelo aumento da intensidade dos furacões, percebe-se que Emanuel está claramente decidido em sua resposta. Vale notar também no post de hoje do Mooney outra constatação:

“More recently, though, Holland and his co-author Peter Webster of Georgia Tech have gone further and, in a new paper (PDF), asserted that in the Atlantic, an increase in tropical cyclone numbers over the past 100 years is indeed being caused by global warming’s heating of the tropical ocean. As the paper puts it: “It is concluded that the overall trend in SSTs and tropical cyclone and hurricane numbers is substantially influenced by greenhouse warming.” The paper further argues that although the proportion of major to minor hurricanes has not changed in the Atlantic, there are more of the strongest storms just because there are more storms in total.”

Ou seja, não só a intensidade, mas o número de furacões que se formam no Atlântico aumentou em função do aquecimento global.

É claro, ainda há discussões no meio científico sobre a parcela exata de culpa das emissões de CO2 nesse fenômeno, mas é quase certo que há uma parcela – existem outros fatores que influenciam a formação dos furacões, como temperatura da água do mar, o El Niño, correntes atmosféricas, etc.

Resta a nós ficarmos atentos ao que os próximos artigos de Emanuel e de outros grupos importantes da meteorologia podem acrescentar à discussão, que já está pra lá de quente.

(Também postado aqui.)

Definição de aquecimento global

” ‘Aquecimento global’ é uma frase que se refere ao efeito sobre o clima das atividades humanas, em particular a queima de combustíveis fósseis (carvão, óleo e gasolina) e a queima em larga escala das florestas, que causam emissões à atmosfera de grandes quantidades dos “gases do efeito estufa”, dos quais o mais importante é o dióxido de carbono. Esses gases absorvem a radiação infravermelha emitida pela superfície da Terra e agem como um cobertor sobre a superfície, mantendo-a mais aquecida do que deveria ser. Associadas a esse aquecimento estão as mudanças climáticas. A ciência básica do “efeito estufa” que gera o aquecimento é bem compreendida. Um entendimento mais detalhado requer modelos numéricos do clima, que integram as equações básicas dinâmicas e físicas que descrevem o sistema climático completo. Muitas das características esperadas das mudanças resultantes do clima podem ser identificadas (como ondas de calor mais frequentes, aumento de chuvas tropicais, aumento na frequência e intensidade dos eventos climáticos extremos). Incertezas substanciais ainda existem sobre o conhecimento dos feedbacks dentro do sistema climático (que afetam a magnitude de mudança total) e em muitos dos detalhes regionais da mudança. Devido aos impactos negativos nas comunidades humanas (incluindo aumento substancial do nível dos oceanos) e nos ecossistemas, o aquecimento global é o problema ambiental mais importante que o mundo passa no momento. Adaptação aos impactos inevitáveis e motivação para reduzir sua magnitude são necessárias. Uma ação internacional tem sido alavancada pela comunidade científica e política mundial. Devido à necessidade por ação urgente, o maior desafio atual é mudar rapidamente para uma condição de maior eficiência energética e para a geração de energia por combustíveis não-fósseis.”

– Tradução minha desse resumo aqui. Referência:

Houghton, J. 2005 Global Warming. Rep. Prog. Phys. 68: 1343-1403.

(Thanks for the excellent link, S. Wayne!)

– Também postado aqui.

A importância do modelo

Estava lendo o último post do Real Climate, onde os climatologistas discutem o último inverno americano, extremamente atípico, e com pouca neve em regiões onde sempre neva muito, como a costa leste.

Um pedaço me chamou a atenção:

“(…) one cannot attribute a specific meteorological event, an anomalous season, or even (as seems may be the case here, depending on the next 2 months) two anomalous seasons in a row, to climate change. Moreover, not even the most extreme scenario for the next century predicts temperature changes over North America as large as the anomalies witnessed this past month. But one can argue that the pattern of anomalous winter warmth seen last year, and so far this year, is in the direction of what the models predict.” (grifo meu)

Temos que tomar cuidado na atribuição de todos os problemas ecológicos do mundo ao aquecimento global. O modelo científico aceito pelos mais renomados especialistas realmente diz que o mundo tende a um aquecimento – e que outros cientistas de áreas diversas afirmam poder trazer consequências catastróficas para os humanos.

Mas ponderação é sempre algo importante em qualquer caso. Se por um lado, a existência dessa estação anômala trouxe com toda a força para a mídia o problema do aquecimento global – principalmente aquele antropogênico, ou seja, causado pelo ser humano -, pode trazer também a oportunidade de entendermos melhor os modelos que estão por trás de tais afirmações da mídia.

Os modelos são calculados baseados em temperaturas medidas por muitos anos, décadas, séculos, e até milênios. Há como identificarmos a temperatura de alguns milhares de anos analisando-se a composição da atmosfera que ficou aprisionada em blocos de gelo em locais remotos, como na Antárctica, por exemplo. Quando olhamos para esses números, vemos que houve momentos de aquecimento e resfriamento, como se fosse um ciclo que acontece de vez em quando com o planeta. Sobe e desce. Entretanto, alguns estudos usando diferentes tecnologias apontaram há algum tempo que o século 20 foi anomalamente quente, e que a tendência de variação climática está só subindo – o que plotado num gráfico gera a forma de um bastão de hóckey voltado para cima, a que os climatologistas chamam de curva de “hockey stick”, como vemos abaixo nesse gráfico com a temperatura média do último milênio:

Temperatura dos ultimos 1000 anos

(Repare que o ano de 2006, o sexto mais quente da história, ainda não havia sido registrado nesse gráfico na época de sua feitura… e que se prevê que 2007 será o mais quente da história, o que significa que pode passar dessa linha preta de 2004. Gráfico tirado daqui.)

O modelo de clima global caminha para esse ápice à direita, ou seja, terá variação de temperaturas médias maiores. O que os dados coletados pelos cientistas hoje em dia fazem é apenas confirmar esse modelo por diferentes caminhos científicos – e pasmem, na maioria quase absoluta, os dados confirmam a existência dessa curva crescente teorizada anos atrás. Então, quando alguém refuta o aquecimento global dizendo que “a Terra sempre teve um ciclo de quente-frio”, vale ressaltar a essa pessoa que nunca os dados (que são estatisticamente significativos e controlados, publicados em jornais científicos, revisados, repetidos, etc.) mostraram variações de temperaturas tão altas – e subindo mais a cada ano. O conceito de “quente” do passado não é o mesmo que estamos presenciando hoje. Ok, há o efeito do El Niño (que esse ano inclusive prevê-se que será “moderado”, não tão forte quanto no passado), há o problema das erupções vulcânicas, mas nesse último século há principalmente a ação humana gerando CO2 em quantidades gigantescas. Portanto, podemos até (fugir e) culpar o El Niño, podemos (fugir e) culpar os vulcões em erupção e o que mais de irracional aparecer pela frente, mas o grande diferencial dessa equação – o homem – precisa também ser incluído no cálculo e repensar suas atitudes geradoras de CO2. Repensar o que vem fazendo pelo planeta.

Mesmo que isso não afete a sua existência direta agora – afinal, os modelos climáticos são, como tudo na ciência e na vida, baseados em estatísticas -, é um problema cuja probabilidade de afetar as gerações futuras é muito elevada. E que planeta você quer deixar para seus filhos?

Olhe pro modelo do gráfico, pondere e responda.

(Postado também no Uma Malla pelo mundo.)