A morte definitiva da agricultura familiar

Transgenicos-terminator

Tramita no Congresso Nacional o Projeto de Lei n.º 268/2007, de autoria do deputado Eduardo Sciarra (PSD/PR):

Art. 1º O inciso VII e o parágrafo único do art. 6º e o caput do art. 28 da Lei nº 11.105, de 24 de março de 2005, passam a vigorar com a seguinte redação:

“Art. 6º……………………………………………………………………………………………………………………………..

VII – a comercialização de sementes que contenham tecnologias genéticas de restrição de uso de variedade, salvo quando se tratar de sementes de plantas biorreatores;

Parágrafo único. Para os efeitos desta Lei, tecnologias genéticas de restrição de uso de variedade são mecanismos moleculares induzidos em plantas geneticamente modificadas para a produção de sementes estéreis sob condições específicas.

Art. 2º Comercializar sementes que não sejam de plantas biorreatores e que contenham tecnologias genéticas de restrição de uso de variedade:

Pena – reclusão de 2 (dois) a 5 (cinco) anos, e multa.”

Art. 2º O artigo 3º da Lei nº 11.105, de 24 de março de 2005, passa a vigorar acrescido do seguinte inciso:

XI – Biorreatores: organismos geneticamente modificados para produzirem proteínas ou substâncias destinadas, principalmente, ao uso terapêutico ou industrial.

Art. 3º Revogam-se os artigos 11 e 12 da Lei nº 10.814, de 15 de dezembro de 2003.

As leis citadas, 11.505/2005 e 10.814/2003, são, respectivamente, a lei que “estabelece normas de segurança e mecanismos de fiscalização de atividades que envolvam organismos geneticamente modificados – OGM e seus derivados, cria o Conselho Nacional de Biossegurança – CNBS, reestrutura a Comissão Técnica Nacional de Biossegurança – CTNBio, dispõe sobre a Política Nacional de Biossegurança – PNB” e “Estabelece normas para o plantio e comercialização da produção de soja geneticamente modificada da safra de 2004, e dá outras providências”.

A leitura da “justificativa” é imprescindível para a compreensão do que está sendo proposto.

Para quem sabe ler entrelinhas, a Monsanto diz que “É verdade que as GURTs [Tecnologia de Restrição no Uso do Gene, ou as chamadas sementes “Terminator”, as estéreis, ou como chama o PL 268, as que tenham “restrição de uso de variedade”] oferecem certos benefícios. Essa tecnologia pode ser usada para limitar o uso ou propagação de um material genético específico na agricultura. Por exemplo, criadores de tecnologia podem investir em características benéficas e utilizar as GURT para garantir que características específicas sejam disponibilizadas apenas para produtores que desejem pagar e utilizá-las.” (leia aqui o texto da Monsanto)

A Monsanto admite a preocupação, ao dizer que “muitos expressaram preocupação de que as sementes estéreis pudessem representar uma ameaça à sobrevivência de pequenos agricultores em países em desenvolvimento, pois há séculos, esses produtores têm salvado sementes para cultivar na próxima safra.”

Eis a questão: quem adotar esse tipo de semente (e quem não irá, diante do fato de que ate para conseguir algum tipo de financiamento o produtor deve se sujeitar às exigências do sistema, dentre elas a de que compre sementes transgênicas?) se tornará eterno dependente da Monsanto (ou outros fabricantes).

A sustentabilidade que boa parte da agricultura familiar (e orgânica) consegue provém justamente da possibilidade de obter sementes da safra que está sendo colhida.

Isso será a morte definitiva da agricultura familiar.

O site “BAN TERMINATOR” é claro quando diz:

Por que Isso é um Problema?

Mais de 1,4 bilhão de pessoas, principalmente famílias de pequenos agricultores, no mundo em desenvolvimento, têm como fonte principal de sementes as guardadas de seus próprios cultivos. As sementes Terminator forçarão à dependência de fontes externas e quebrarão com as práticas de troca de sementes dos povos locais e indígenas, bem como com a prática milenar de seleção e reprodução efetuada pelos agricultores – a base para a segurança local de disponibilidade de sementes.

Se o Terminator for comercializado, a esterilidade das sementes será, provavelmente, incorporada em todas as plantas GM. Isso porque a esterilidade das sementes permite um monopólio muito mais forte do que as patentes; ao contrário das patentes, não há data de expiração, nenhuma exceção para os melhoristas e nem necessidade de advogados.”

É mais um daqueles projetos que vão tramitando “quietinhos” no Congresso.

Porto Alegre: de volta ao passado!

Árvore POA 02

O PASSADO DE EXEMPLO

O dia: 25 de fevereiro de 1975.

A hora: 11 horas da manhã.

O fato: Servidores da SMOV (Secretaria Municipal de Obras e Viação) chegam em frente à Faculdade de Direito (na Av. João Pessoa) para terminar de cortar as árvores que estavam “atrapalhando” a construção do viaduto Dona Leopoldina (um dos acessos). Por razões desconhecidas, deixaram uma última árvore para depois do almoço.

Nesse meio tempo, um estudante da Faculdade de Engenharia Eletrotécnica, Carlos Alberto Daryel subiu na árvore e fez história. Dois outros estudantes, Teresa Jardim e Marcos Saracol logo fizeram companhia para Carlos, evitando, assim, que a árvore fosse derrubada.

Naquela época, em plena ditadura civil-militar, o estrago estava feito. Batalhão de choque da Brigada Militar, transeuntes e estudantes transformaram a Av. João Pessoa numa praça de guerra.

Por interferência do Diretor da Faculdade de Engenharia, que negociou com as autoridades municipais, foi garantido aos estudantes que a árvore não seria cortada e que, portanto, eles poderiam descer. E assim fizeram e assim as autoridades honraram seu compromisso.

Sim, é a árvore da imagem acima. Está lá até hoje. E Carlos, em 1998, foi agraciado com o título de “Cidadão de Porto Alegre”.

Além do fato em si, o importante foi a mudança que ele causou em todos: tanto autoridades quanto os porto-alegrenses “acordaram” para a conservação do meio ambiente. Tanto que Porto Alegre se transformou na cidade brasileira de maior densidade de árvores por habitante do Brasil.

Porto Alegre, graças a essa consciência de conservação ambiental tem a que é considerada, em muitos lugares, como sendo a rua mais bonita do mundo.

goncalo-de-carvalho

Porto Alegre também foi a cidade que recebeu o 1º Fórum Social Mundial, onde “um novo mundo é possível”.

 

O PASSADO RECENTE E O PRESENTE QUE NOS ENVERGONHAM

O dia: 29 de maio de 2013.

A hora: de madrugada, às 4:00 da manhã.

O fato: Brigada Militar acorda acampados com algemas e, logo após, a prefeitura começa, ainda no escuro, a derrubar as árvores.

O motivo: a derrubada de árvores para o alargamento de uma via, obra tida como necessária para a mobilidade da Copa do Mundo de 2014.

Apenas trinta e oito anos nos separaram da barbárie. O local onde as árvores se encontravam está previsto, no Plano Diretor (isto é, em lei) para ser um parque. O Ministério Público tentou de todas as formas impedir a derrubada. Chegou a conseguir uma liminar, logo cassada pelo Poder Judiciário gaúcho. Diversas ONGs e inclusive o IAB (Instituto dos Arquitetos do Brasil – Seccional RS) apresentaram alternativas. Nada foi ouvido, lido e considerado pelas atuais autoridades.

Na rua Anita Garibaldi, para a construção de uma passagem de nível sob uma grande avenida (também obra da Copa) foram removidas 60 árvores.

 

O PRESENTE AINDA NOS ENVERGONHA GARANTINDO QUE O FUTURO SERÁ PIOR

Não bastasse isso, outra obra prevista pela Copa, vai derrubar 1.500 (mil e quinhentas) árvores na Av. Tronco.

Para nos deixar mais abismados ainda, Luiz Pinheiro, nessepost no Facebook, mostra uma alarmante destruição dos jacarandás que adornavam a Av. Osvaldo Aranha. Algo sem explicação até agora!

Para terminar, diversas árvores do Parque Farroupilha, a Redenção, apareceram marcadas com a letra “C”. Ninguém ainda descobriu a origem e o motivo das marcas. A prefeitura nega que as tenha marcado, como um aviso de “Cortar”. O certo é que a prefeitura “vendeu” o auditório Araújo Vianna para exploração pela iniciativa privada (que inclusive já o cercou, impedindo o acesso público ao seu entorno) e que há sérios problemas de estacionamento em dias de espetáculos. Corre o boato de que derrubarão as árvores para abrir espaço para estacionamento.

Já ia esquecendo: com foi construído um shopping center que margeia a rua Gonçalo de Carvalho, não fosse a manifestação dos moradores e de quase todos os habitantes de Porto Alegre, não teríamos mais a rua mais bonita do mundo, pois a prefeitura havia autorizado a derrubada de árvores no terreno do shopping para fazer um estacionamento, o que traria imediatamente a morte das árvores da rua.

O VINGADOR DO FUTURO

Como a atual administração de Porto Alegre não pode realizar a ficção de retornar ao passado para liquidar a origem daquilo que considera o mal que vive hoje (as árvores e, quiçá o Eng. Carlos), usa e abusa de autoritarismo para simplesmente acabar com a cobertura vegetal da cidade.

Voltamos ao passado, mas não ao passado que nos serviu de exemplo! Voltamos ao negro passado da calada da noite! Ao passado da troca de árvores por automóveis.

A um passado que nos envergonha!

 

Massa Crítica POA: não foi acidente

No dia 25 de fevereiro, como fazem toda última sexta-feira de cada mês, ciclistas de Porto Alegre se reuniram para a pedalada do Massa Crítica, um movimento que começou em São Francisco, nos EUA, para estimular e regularizar o uso de bicicletas como meio de transporte e parte integrante do trânsito. O intuito é educar o público em geral, mostrando que as bicicletas, longe de serem inimigas dos motoristas, ajudam a reduzir o número de carros nas ruas e, consequentemente, o trânsito e a poluição, tornando mais puro o ar que nós respiramos – inclusive aqueles que estão atrás do volante.

Acontece que o desfecho foi inacreditável. Um motorista, aborrecido por ter que esperar as bicicletas passarem, resolveu que a solução seria sair atropelando todo mundo. As cenas são chocantes.

Ele alega legítima defesa. Diz que foi ameaçado pelos ciclistas. Sério? Como que uma bicicleta ameaça um carro? Ou mesmo várias bicicletas? Quem tem mais força? Se você estiver em dúvida, basta olhar as cenas. Há vários vídeos no site do Massa Crítica POA.

Pois bem: ele alega que saiu atropelando porque estava sendo ameaçado. Mas um dos vídeos mostra justamente o momento em que o cara sai atropelando. Quem filmou, começou a filmar um pouco antes. Uma atmosfera de paz, todo mundo pedalando tranquilamente, sem barulho de agressões.

Espero que não deixem esse cara passar impune, porque, como disse o jornalista Alexandre Garcia, em qualquer país desenvolvido os motoristas morrem de medo de machucar um pedestre ou ciclista, e são até mais cautelosos do que de costume quando se deparam com algum, caso contrário recebem punições severas. No Brasil, o Código de Trânsito é claro, mas não se cumpre: num caso desses, o culpado é o motorista, afinal ele é o mais forte.

Vamos aproveitar, também, para sensibilizar as pessoas para um trânsito mais gentil e estimulá-las a conhecerem as leis pertinentes. Ao ultrapassar um ciclista, por exemplo, o motorista tem que dar um metro e meio de distância entre o carro e a bicicleta. Quando um pedestre está atravessando na faixa, independente de haver semáforo ou não, a preferencial é do pedestre. E cobrar das autoridades que multem quem não cumpre essas leis.

Eu me senti pessoalmente agredida com o ocorrido. Eu quero poder andar de bicicleta nas ruas, usando-a como meio de transporte, em segurança. Quero ter certeza de que os motoristas saberão me respeitar. Quero que minhas filhas possam andar de bicicleta nas ruas em segurança. E, enquanto não punirem de maneira exemplar criminosos como esse cara, nenhum ciclista estará seguro nas ruas.

O mar não está para peixe! Graças ao bicho-homem.

Leiam, com atenção, a excelente reflexão que a queridíssima Luma faz em seu post O mar não está para peixe, publicado aqui, com a gentil autorização da autora:

pescaria

Como o salmão nos EUA, peixes no Brasil também tiveram sua população fortemente reduzida. A pesca está proibida para o Cherne-povoeiro e para o Mero, entre outros. O Cherne-povoeiro por ser uma espécie de crescimento lento, maturação sexual tardia e entre outros fatores, se tornou vulnerável à sobrepesca.

Em ciências pesqueiras, chama-se sobrepesca à situação em que a atividade pesqueira de uma espécie ou região deixa de ser sustentável, ou seja, quanto mais esforço de pesca se utilizar, menores são os rendimentos, seja do ponto de vista biológico, seja econômico.

“Em resumo, diversos trabalhos de pesquisa realizados, apontaram para a sobrepesca e risco de colapso dos chernes do Atlântico sul ocidental, levando à inclusão da população brasileira na Lista Vermelha da União Internacional para a Conservação da Natureza, sob a designação de ‘Criticamente ameaçada de extinção‘” (Mar-oceania/Biologia pesqueira, Seminários temáticos para a 3ª Conferência Nacional de C,T&I. Pág. 24 – de Silvio Jablonski)

O cherne-povoeiro, espécie de grande porte, também conhecido como cherne-pintado, é um peixe de águas tropicais do Atlântico sul e Pacífico. No Brasil ocorrem em todo o litoral, porém, a mais importante área de ocorrência e pesca da espécie é na costa do Rio Grande do Sul (Alô, Gaúchos!)

Na cidade de Arraial do Cabo, vizinha de Cabo Frio onde moro, encontra-se uma grande colônia de pescadores oriundos de Póvoa de Varzim/Portugal e o nome deste peixe veio desses “povoeiros” – primeiros pescadores que começaram a trabalhar com a espécie quando migraram em massa para o Brasil no final do século XIX.

O Cherne-povoeiro é um carnívoro voraz, alimenta-se de lulas, crustáceos e peixes demersais (animais marinhos que vivem em fundos arenosos ou rochosos). Solitários, costumeiramente via-os perto de boias em alto mar e em plataformas de petróleo. Não diferem dos “humanos” quando jovens quando se enganam com algumas companhias – vez ou outra, acompanham objetos flutuantes.

Antes da proibição, já haviam poucos peixes ao sul de Cabo Frio e é triste constatar que este peixe praticamente sumiu, perto do número deles que víamos em alto mar. Foi a então Ministra do Meio Ambiente Marina Silva que assinou em 2005, a instrução norminativa nº 37 proibindo a pesca do Cherne-povoeiro nas águas jurisdicionais brasileiras por 10 anos. Além da captura, também está proibida a comercialização do peixe, mas o bicho homem é que deveria ser extinto da face da terra, porque ele só destrói e nada constrói! Pois não é que em Outubro, cerca de 1 tonelada do peixe, foi apreendida em um depósito em São João do Meriti, por policiais da Delegacia de Proteção ao Meio Ambiente, ajudados por peritos do Instituto Carlos Éboli e funcionários do Ibama?

Se a pesca é proibida e escassa, como esses bandidos capturam os peixes? Existe uma grande tecnologia para isso – Os piratas dos mares, usam super computadores, aviões e detectam cardumes em qualquer ponto dos oceanos usando satélite.

Falo um pouquinho mais sobre essa questão na postagem “Vida Marinha“. Se as espécies marinhas estão no limite de sua reposição e se sabemos que o mar é a fonte de vida de todo o planeta, não respeitando esse ecossistema, estaremos deflagrando nossa destruição.

mar&oceanos

Você acha que já viu de tudo… durante 10 anos de pesquisas exaustivas, foi divulgado um “Censo da Vida Marinha“e oceanos foram vasculhados, das superfícies até as profundezas das fossas abissais, onde foram catalogadas mais de 250 mil espécies animais e plantas marinhas, 1,2 mil novas espécies adicionada ao volume anterior, 5 mil novos organismos coletados para estudo e apesar do número aparentar grandeza para nós, os cientistas adiantam que esta é apenas um parcela das espécies que vivem nos oceanos, podendo chegar perto de um milhão.

O bom desta pesquisa foi que revelou que algumas espécies que eram consideradas extintas, mortas a mais de 50 milhões de anos, ainda estão na ativa, como o “Camarão Jurássico”. Um outro lado dos oceanos foi revelado e exemplificado, tendo por base a comparação de que – em 1 litro de água do mar habitam 20 mil tipos diferentes de bactérias – micróbios oceânicos que produzem metade do oxigênio do planeta. Uma grande quantidade de microorganismos que torna a diversidade animal e vegetal quase insignificante se colocados em uma balança.

A conexão entre as espécies é enorme, partilhando até o mesmo DNA. Bem, somos os predadores e saibam que os corais estão branqueando, morrendo de fome, porque as algas que habitam dentro deles e que os alimentam, estão morrendo também. Muitas espécies de corais morrerão ainda neste ano de 2010 e isto tem muito a ver com a nossa falta de conexão com o mar ou melhor, responsabilidade com a vida.

Visitem o site do “Censo da Vida Marinha” – Cada imagem… uma viagem!

Lembre-se, consumo consciente!

Texto integrante do blogue Luz de Luma, yes party! | Cópia de texto somente mediante autorização, preserve os direitos autorais do editor |
Obrigada, Luma!

O caso Belo Monte

Importante notícia no blog da Telma Monteiro:

Animação em 3-D com narração de Dira Paes será lançado nesta quarta-feira em Belém, Pará

Nesta quarta, dia 15, será lançado em Belém (PA) um vídeo em duas partes de quatro minutos e com animação 3-D, que apresenta de forma clara e didática os impactos sociais, ambientais e econômicos da hidrelétrica de Belo Monte no Rio Xingu. O vídeo foi produzido pelo Movimento Xingu Vivo para Sempre (MXVS).
Intitulado Defendendo os Rios da Amazônia, o projeto faz parte de uma campanha nacional e internacional coordenada pelo MXVS, coalizão de organizações sociais e ONGs em defesa do Rio Xingu e contra a construção da hidrelétrica de Belo Monte. Segundo os coordenadores do movimento, o vídeo alerta a sociedade brasileira para o processo atropelado, leviano, desrespeitoso e ilegal de planejamento e licenciamento do empreendimento pelo governo federal.
(…)”

Visite o blog e leia o restante… tem mais…

A privatização da água: dia mundial da água

Catuípe é uma pequena cidade do interior do Rio Grande do Sul (nas Missões) e é conhecida como “Terra das Águas Minerais”. Ao tempo em que era um distrito de Santo Ângelo, chegou a ser classificada como Estância Hidromineral. Afinal, Catuípe fica sobre o Aquífero Guarani.
Catuípe tem uma particularidade: todas as residências recebem água mineral encanada:
A população do Município de Catuípe, constituída de 9.499 habitantes, desfruta de um componente invejável na questão da qualidade de vida: a água mineral encanada, distribuída em todas as torneiras. Pelo sistema de distribuição de água potável na cidade, via Corsan, através da captação de poços artesianos, a população recebe em suas residências água mineral classificada como fluoretada e bicarbonatada. Esta qualidade, tem sido um ingrediente de valor no consumo diário dos catuipanos, que dispensam a tradicional aquisição de água mineral engarrafada.” (daqui)
Mas não é bem assim. Na verdade dois processos de privatização estão ocorrendo na cidade. O primeiro, praticado pela cia estatal: monopolizou os poços artesianos e aquilo que poderia ser fonte de renda para o município e seus cidadãos, por meio da exploração turística, acaba nos cofres do governo estadual e aplicado sabe-se lá onde, menos na cidade.
O monopólio estatal para fornecimento de água proíbe a abertura de poços artesianos em áreas urbanas. E sabemos que os governos, nesse país, não são exemplos de “pelo povo e para o povo”. É uma espécie de privatização, pois decisões de investimentos sao sempre feitas por um pequeno grupo para o benefício político de um pequeno grupo.
O segundo, fiquei sabendo por uma conversa que tive com um catuipano, semana passada, Contou-me ele que uma empresa de água (vou conferir e depois atualizo com o nome) já se instalou no município e está adquirindo fontes de água mineral. Em breve é possível que toda água de Catuípe seja fornecida por essa empresa. É a privatização total.
O caso de Catuípe não é único, infelizmente. Muitas cidades brasileiras já privatizaram o fornecimento de água. E a coisa anda a passos largos aqui no Brasil.
Temos que cuidar. Caso contrário, um simples copo d’água poderá nos custar “os ohos da cara”.

Agricultura biológica fora da lei?

Nos Estados Unidos, a deputada democrática Rosa DeLauro apresentou uma proposta de lei ao congresso, que deverá ser analisada em breve. Conhecida como Food Safety Modernization Act of 2009 e patrocinada por lobistas dos grandes conglomerados como MONSANTO, CARGILL, ADM (Archer, Daniels e Midland) e mais 35 grandes empresas agroalimentares, na prática, se aprovada, a tal lei deverá acabar com a agricultura biológica, considerada insana. Do modo em que foi redigida a malfadada proposta os hortos caseiros também seriam banidos.
O objetivo, segundo a deputada, teria como finalidade criar uma nova agência dentro do Department of Health and Human Services, chamada Food Safety Administration (FSA), para proteger a população da gestão perigosa dos alimentos e criar um standard para a segurança alimentar que atinja, inclusive, alimentos importados. Desse modo, ao FDA restaria somente o controle de medicamentos.
Apesar de não existir no projeto de lei nenhuma indicação desfavorável à cultivação para o próprio consumo e a palavra “biológico” jamais ter sido usada, também não existe nenhuma indicação favorável. O projeto de lei foi redigido de maneira a permitir interpretações e determina que as disposições de segurança alimentar que consistem no uso de agentes químicos, serão adotados um muito genérico “mecanismo de produção de alimentos” e em “qualquer empresa agrícola, ranchos, hortos, vinhedos e qualquer instalação ou local usado para cultivar”. Ou seja, presumivelmente seriam incluídos cultivações biológicas e hortos caseiros. Pobre Michelle Obama. Se a lei passar, ela terá que arrumar outro passatempo.

Carta sobre a acidificação dos oceanos

Hoje a blogosfera marinha gringa foi especialmente convidada a publicar uma carta escrita por Sally-Christine Rodgers e Randy Repass sobre o alarmante processo de acidificação dos oceanos. O convite veio (via Rick) de Sheril Kirshenbaum, do blog Intersection, que está coordenando a blogagem. A carta é um depoimento e um alerta. Em inglês, contém detalhes práticos de como as pessoas residentes nos EUA podem agir em prol da causa, demonstrando ao seu representante político a importância de se conter a diminuição do pH dos mares, o quanto esse processo pode modificar drasticamente o ecossistema marinho, levando-o a um caminho deveras imprevisível. De certa forma, esse conselho deveria valer para nós brasileiros também; afinal, pentelhar o seu representante político é uma das formas de alertá-lo que aquela é uma questão que importa pra você, que o elegeu. Entretanto, o desinteresse pelo povo do poder legislativo brasileiro é assunto deveras complexo e desestimulante, pra dizer o mínimo. Por isso, a intenção do conselho ainda vale, mas requer mais persistência nossa aqui na terra tupiniquim. Enfim.
Para os amigos que lêem o blog, fiz uma tradução livre em português, retirando as coisas que não competem aos brasileiros – caso você more nos EUA e se interesse pela causa, pode ler em inglês e contactar seu senador. Há considerações que poderiam ser mais discutidas sobre o tema, mas como a idéia hoje é espalhar pela web as palavras dos dois que já lutam pelo tema, deixo a discussão para um post futuro. Agora, é hora de ouvir a mensagem de quem está na linha de frente pelos mares do mundo.
Eis a mensagem de Randy & Sally-Christine sobre a acidificação dos oceanos.
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“Nós somos velejadores desde sempre. O que a gente vem aprendendo navegando pelo Pacífico nos últimos 6 anos, e especialmente dos cientistas focados na conservação marinha, é espantoso. Independente se você passa seu tempo na água ou não, a acidificação dos oceanos afeta a todos nós e é algo que acreditamos você vai querer saber mais.
O que você faria se soubesse que muitas espécies de peixes e animais que vivem nos oceanos desaparecerão em 30 anos caso os níveis de CO2 continuem aumentando na taxa atual? Nós acreditamos que você pode agir de forma a evitar este processo de acontecer, porque pessoas informadas fazem escolhas conscientes. Esta carta é sobre o que podemos e devemos fazer juntos agora para ajudar a resolver este problema tão sério e tão desconhecido, a acidificação dos oceanos.
A acidificação dos oceanos é primariamente causada pela queima de combustíveis fósseis. Quando o dióxido de carbono da atmosfera chega aos oceanos, modifica o pH deste ambiente, tornando o mar acídico e mais hostil à vida. Com o tempo, o CO2 reduz o carbonato de cálcio, o que dificulta a formação de conchas de alguns invertebrados e a formação dos recifes de corais. Na realidade, as conchas existentes podem começar a dissolver com o pH ácido. Ostras e mexilhões não terão mais a capacidade de construir suas conchas. Caranguejos e lagostas? Seus bisnetos podem ter que apenas imaginar qual era o sabor real deles.
O dióxido de carbono concentrado nos oceanos está tornando a água do mar mais acídica. Boa parte do zooplâncton, animais microscópicos na base da cadeia alimentar, têm esqueletos que não se formarão em condições acídicas, fazendo a vida nos níveis superiores da cadeia – peixes, mamíferos e aves marinhas que dependem do zooplâncton para comer – também perecerão. Sem comida não há vida. Um bilhão de pessoas dependem de peixe e frutos do mar como sua fonte primária de proteína. Muitos relatórios científicos documentam que no mundo inteiro os humanos já estão consumindo mais comida que o que vem sendo produzido. As implicações são óbvias.
A questão da acidificação dos oceanos está causando perda irreversível de espécies e habitats, e a tendência à acidificação está acontecendo até 10 vezes mais rápido que o projetado anteriormente. Nós queremos que você saiba o que isso significa, como afeta a nossa vida, e o que podemos fazer sobre.
Hoje, a concentração de CO2 na atmosfera é de cerca de 387 partes por milhão (ppm) e aumenta cerca de 2 ppm por ano. Se continuarmos com essa tendência, em 2040 a projeção é de que a atmosfera terá mais de 450 ppm, e os cientistas marinhos acreditam que o colapso da maior parte do ecossistema marinho será irreversível. Outros efeitos fisiológicos da acidificação sobre a vida marinha incluem mudanças reprodutivas, nas taxas de crescimento e até na respiração dos peixes.
Corais tropicais e de água fria estão entre as criaturas maiores e mais antigas que vivem na Terra; formam o ecossistema mais rico em termos de biodiversidade, fornecem áreas para reprodução, berçário e alimentação para 1/4 de todas as espécies do mar. Os recifes de coral estão sob risco. À medida que a concentração de CO2 aumenta, corais, crustáceos e outras espécies que produzem conchas não serão capazes de construir seus esqueletos e muito provavelmente se extinguirão.
A boa notícia é que nós podemos “consertar” este problema. Mas, como você pode imaginar, será difícil. A acidificação dos oceanos é causada pelo aumento do CO2 na atmosfera. Resolver um problema pode resolver o outro.
“O IPCC concluiu que, para estabilizar o CO2 na atmosfera a 350 ppm até 2050, as emissões de CO2 globais precisams er cortadas em 85% do nível de 2000.” É bastante! Da forma como nosso sistema político funciona (ou não funciona) torna tudo mais complicado. Cabe a nós dar um passo a frente, se comprometer e arcar com a responsabilidade de permitir que isso aconteça na prática.
A acidificação dos oceanos é uma questão em que podemos fazer algo sobre. Precisamos de uma leva de cidadãos informados que sejam capazes de mobilizar o Congresso para ter coragem de se mobilizar contra os interesses arraigados da indústria de carvão, petróleo e gás que não se comprometem com a redução do CO2. Também precisamos de verdadeiros líderes que criem agressivamente empregos usando tecnologias sustentáveis. A escolha é nossa. Nós podemos resolver este problema. O que a gente sabe é que o futuro de nossos filhos, netos e de fato, de toda a humanidade, depende da nossa decisão.
Por favor, compartilhe esta carta com outros. Nós agradecemos que você tire seu tempo e contacte a sua representação política; é fácil de fazer e efetivo.
Obrigada pelo seu apoio.
Randy Repass
Presidente
West Marine
Sally-Christine Rodgers
Diretora
Oceana
(Um relatório mais completo sobre o tema você encontra aqui.)

Não temos tempo para pessimismo

Sei que a essa altura do campeonato já deve estar todo mundo sabendo do lançamento feito no último 5 de junho, em comemoração ao Dia do Meio Ambiente, do filme “Home”, de Yann Arthus-Bertrand, com narração em ritmo perfeito por Glenn Close. De qualquer forma, queria deixar aqui o trailler para incentivar os que ainda não assistiram.

As imagens são belíssimas, todas aéreas de ângulos bem inusitados e criativos. Verdadeiras obras de arte, que impressionam, chocam, levam à reflexão e esfregam na nossa cara e consciência a urgência de mudarmos nossas atitudes consumistas. A mensagem que se leva para casa é simples: não temos tempo para pessimismo. Nem para politicagem, mimimis e discussões infundadas. Há uma necessidade maior em jogo, a de que cuidemos de nossa casa, o planeta Terra. Precisamos agir em prol dele já.
O filme inteiro está disponível no Youtube até dia 14 de junho, e depois dessa data, direto no site deles.
(O Alex Primo fez uma boa resenha de “Home”, vale conferir.)

Sharkwater na China

Barbatanas secando
Barbatanas de tubarão secando em embarcação brasileira.
Rob Stewart, o autor-diretor-produtor-faztudo de “Sharkwater”, documentário-denúncia sobre as causas, complexidades e consequências do comércio de barbatanas de tubarão no planeta, divulgou semana passada em seu blog uma campanha para tentar levantar fundos e levar seu filme para os cinemas na China.
Pode parecer um “nada”, mas é na verdade uma atitude preciosa quando falamos de comércio de barbatanas de tubarão. Veja bem, a China é o maior mercado consumidor de barbatanas do planeta. Estima-se que 80% das barbatanas coletadas no mundo vão parar no porto de Hong Kong, de onde são distribuídas para o resto do país (e vizinhos da Ásia) e servidas em bufês de casamento, jantares de negócios e outras situações de status dentro da sociedade chinesa. Mas o mais gritante – e que o post de Stewart cita – é que na China, a tradução de “sopa de barbatana de tubarão” é “sopa de asa de peixe”. Ou seja, o chinês médio pode não saber que está depletando um animal topo de cadeia alimentar do ecossistema. Junte-se a isso a história que ouvi de um divemaster: os chineses que iam mergulhar diziam que “não tinha problema retirar a barbatana do tubarão, porque ela regenera” (!!!!). O que, obviamente, não é verdade: uma vez retirada a barbatana, o animal não consegue mais nadar e morre de fome (não consegue caçar) e afogado (a maioria dos tubarões precisa nadar para “ventilar” a brânquia e respirar). Mas aparentemente, é essa lenda que é passada pelos chineses aos mais jovens.
No documentário “Sharkwater”, Rob Stewart tenta explicar porque o hábito de comer sopa de barbatana está dizimando todo um grupo de animais do planeta – veja bem, não é uma espécie, é um grupo. Além disso, mostra o quão intricada é a rede de intrigas que envolve esse comércio – e no documentário rola até um certo drama, como se só a história do massacre aos tubarões já não fosse drama suficiente. Então mostrar essa realidade crua aos chineses, que são a maioria populacional que consome a tal sopa, é um passo muito significativo para a conscientização. Se considerarmos que menos de 10% das pessoas que virem o filme serão impactadas por ele, ainda assim, na super-populosa China, isso pode ser um número significativo de pessoas. Pode fazer a diferença. Eu espero imensamente que faça. Fingers crossed.
Rob Stewart e a ONG Save The Blue se uniram então nesse levantamento de fundos para tentar levar o filme à China. Se você acha que pode doar, doe; se não pode, ajude a divulgar. Os tubarões agradecem a preocupação. 🙂
Barbatanas em HK
Barbatanas à venda em loja de Hong Kong, na Des Voeux street.
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– Se intencionamos parar com a matança desenfreada de tubarões, é preciso haver melhores estratégias de educação/informação do consumidor, principalmente mais direcionadas ao público-alvo que mais consome (no caso, os países asiáticos). Por isso, meu post. Nessa semana, o DPG postou uma propaganda contra o consumo de sopa de barbatana de tubarão. O vídeo “Not on our menu” encontra-se aqui e no DivePhotoGuide o Jason Heller pincela mais detalhes. É um passo, uma atitude; tomara que inspire outras mais.