Notícias de Londres

Esquilos na mesa
Quem já visitou Londres provavelmente conheceu o Hyde Park, um dos parques mais repousantes da cidade. Visitando o Hyde Park é impossível não deparar-se com os esquilos, que se acostumaram aos visitantes humanos e às suas ofertas de comidas dos mais variados tipos.
Uma curiosidade sobre os esquilos é o alto risco de extinção do esquilo vermelho europeu, uma iguaria gastronômica similar ao coelho – e por isso em extinção – servida nas mesas britânicas. Com a intenção de “preservar” o esquilo vermelho europeu, a rede de supermercados Budgens decidiu substitui-lo pelo esquilo cinza, cujo abatimento consiste em deixá-lo sangrar por um dia inteiro, após parcialmente abatido a pauladas.
Juliet Gellatley, fundadora da Associação Vegana “Viva” além de conhecida zoóloga, em entrevista ao Daily Mail, declarou assutada: “O abatimento de milhares de esquilos cinzas em benefício dos esquilos vermelhos é um conceito irracional, desumano e destinado a falir. É muito triste que a Budgens estimule o massacre somente para distinguir-se da massa. A única mensagem que conseguem passar é aquela de lucrar com o sangue do animal.”
Quando for a Londres, evite a rede de supermercados Budgens e qualquer outro lugar que venda ou sirva carne de esquilo. Vá vê-los no Hyde Park, vivos.
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Bônus e incentivo ao carros elétricos e híbridos

A outra notícia de Londres é positiva: David Cameron confirma os incentivos aos carros elétricos e híbridos. Tais incentivos consistem em um desconto na compra desses veículos, de Janeiro de 2011 a Março de 2012. Na prática, o consumidor irá pagar menos por esses veículos, em relação à tabela de preços oficiais atualmente em vigência, com descontos que podem chegar a 5000 esterlinas, dependendo da idade e do grau de poluição emitido pelo carro velho. A diferença será paga pelo governo, desde que o consumidor dê o seu carro velho e poluidor como parte do pagamento do carro novo. O carro velho será desmanchado para evitar que continue poluindo. A notícia foi dada pelo novo secretário dos transportes Philip Hammond. O governo britânico colocou à disposição da operação 43 milhões de esterlinas.
Para estimular a difusão dos carros elétricos e dos híbridos plug-in estão sendo investidos recursos substanciosos na criação da rede de distribuição. Em Londres, Milton Keynes e nordeste da Inglaterra estarão disponíveis 11 mil colunas de abastecimento elétrico até o fim do ano. Em seguida o programa se estenderá por toda a Inglaterra. Londres se tornará uma cidade menos poluída e mais silenciosa?
Fonte: Quattroruote

A energia que vem de dentro

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Há algum tempo, o João me perguntou em um email sobre a existência de usinas de energia geotérmica aqui no Havaí. A pergunta faz todo sentido: com um vulcão como o Kilauea, ativo há mais de 20 anos e sem previsão certa para cessar sua atividade, utilizar de forma inteligente a energia que esse furor todo produz não pode ser uma idéia deixada de lado. Principalmente nos tempos de hoje, em que clamamos por um modo de gerar energia que seja menos poluente e com menor impacto negativo ao planeta.
A energia geotérmica é basicamente aquela que vem das profundezas da Terra. Nosso planeta possui em seu interior, no chamado core central, materiais originados do processo inicial de formação do planeta. Esses minerais estão concentrados em uma temperatura de quase 5,000 graus Celsius, há mais de 6000 quilômetros abaixo da superfície onde moramos. Como todos aprendemos nas aulas da 5a série, calor é uma forma de energia – então imaginem o que há de energia concentrada potencialmente utilizável num ambiente enorme que está a 5000 graus.
Só há um pequeno “probleminha” logístico para usar essa energia que está no interior da terra: como captá-la. Perfurar 6000 quilômetros ainda não é viável. Então fazemos o que nos é possível com a tecnologia que desenvolvemos: captar a energia geotérmica em pontos da crosta terrestre onde esse calor se aproxima mais da superfície. Esses locais são em geral vulcões, fontes hidrotermais e pontos no fundo do solo onde pedras se fundem sob ação da temperatura (mas que não chegam à superfície). Quando não utilizamos o calor dessas áreas, ele é simplesmente perdido para a atmosfera.
E aí que entra o Havaí.
O arquipélago havaiano está “sentado” em cima de um hotspot, uma área onde a atividade geotérmica se aproxima bastante da superfície. As ilhas se formaram pelo escorrer de resquícios minerais aflorados onde estão hoje os vulcões. À medida que a plataforma continental foi se movendo na direção nororeste (rumo ao Kamchatcka!), a lava que escorria foi se endurecendo, formou o solo das ilhas e o que vemos hoje no mapa.
Mas o hotspot permanece no mesmo ponto. Pela existência dele, o Kilauea está em atividade desde 1983, e a lava não para de escorrer um dia sequer desde então – ainda causa estragos. E causa também formação de terra nova, crescimento diário da ilha em alguns centímetros, e expõe sua capacidade geotérmica gigantesca.
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…e a ilha só crescendo…
Uma capacidade ainda mal-aproveitada no Havaí, convenhamos. Com todo o potencial disponível, há apenas uma usina geotérmica nas ilhas, a Puna Geothermal Venture, na região de Puna, ao sul de Hilo, bem próxima ao Kilauea. Puna é uma pequena empreitada de caráter privado que retira energia a partir do vapor e da água quente da lava vulcânica. A usina de Puna tem capacidade de geração de 30 megawatts (Itaipu gera 92,000 gigawatts, a título de comparação). Isso corresponde a 31% da geração de energia renovável do estado e a 20% da energia consumida na Big Island, onde está instalada. A maior vantagem de Puna é sua contribuição nas emissões de carbono: praticamente zero. Além disso, 100% dos gases e fluidos geotérmicos que restam do processo são reinjetados na crosta, minimizando o resíduo final da geração de energia.
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As fontes geotérmicas que afloram no parque Whakarewarewa, em Rotorua, Nova Zelândia.
Há melhor aproveitamento da energia geotérmica em outros lugares do mundo, como na Islândia, Itália, Filipinas e Nova Zelândia. Afinal, esta é uma opção potencialmente limpa, mesmo que ainda não tão eficiente – ela é renovável. Acho que um investimento mais encorpado nesse tipo de geração de energia trará mais benefícios que estragos ao nosso já tão maltratado planeta. Pondo na balança, é uma opção literalmente quente pro futuro.
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– Mais sobre energia geotérmica:
1) Semana passada houve uma entrevista interessante sobre energia geotérmica no Havaí na Rádio Pública. O entrevistado foi o gerente da usina de Puna. Nesta reportagem, uma geral sobre a usina no seu aniversário de 15 anos.
2) Vale ressaltar que nem todas as usinas geotérmicas são não-poluentes como a havaiana. A retirada de fluidos e gases do centro da Terra pode descarregar na atmosfera quantidades aviltantes de resíduos tóxicos naturais. Portanto, investimento em usina geotérmica também prescreve investimento em tratamento adequado dos resíduos da extração e da pós-produção de energia, para minimizar a poluição e emissão de gases na atmosfera. Mas a usina não utiliza nenhum combustível fóssil para funcionar, e é aí que mora sua grande vantagem no sistema atual: independência do petróleo e da política que vem atachada a ele.
3) Um texto mais técnico sobre a renovabilidade e a sustentabilidade da produção de energia geotérmica. [Link em pdf]

Economia verde or die!


Na fila da padoca, ontem à noite, fiquei na dúvida entre comprar um azeite na promoção e a última edição da Superinteressante, que traz na capa a atual situação deplorável dos oceanos do planeta. Acabei optando pela revista, o que acabou sendo uma boa escolha, não pela matéria de capa, que nada mais é do que um grande cozidão do que vem se falando sobre o tema há meses (quiçá anos). Folheando o material hoje de manhã, o que mais me chamou a atenção foi a entrevista com Tim Jackson, professor de desenvolvimento sustentável da Universidade de Surrey, em Londres, primeira instituição da Inglaterra a criar um departamento específico sobre o tema.
Jackson afirma categoricamente que o crescimento ininterrupto da economia global (um dos pilares do capitalismo moderno) é imcompatível com a sustentabilidade do planeta. Não é comunista, nem petralha, nem antiamericano, apenas mais um da crescente geração de pessoas que acredita num outro mundo possível, sob as regras da economia verde. Já foram ridicularizadas e agora são atacadas. Falta pouco para que sejam consideradas arautos do óbvio.
Enquanto governos e iniciativa privada não se mexem e continuam dando de ombros para o que se avizinha, como vimos em Poznan ou Marraquesh, cabe a nós, indíviduos tomarmos medidas diárias, pouco a pouco, pra ver se lá na frente algo muda. Alguns passos básicos, segundo Jackson, são:
Comprar menos, ser mais eficiente no uso da energia, viajar menos de carro e avião, economizar, fazer investimentos éticos e protestar!
Se for pra ir pro saco, que seja de botas calçadas!
(Este foi meu 100o. post no Ecoblogs!)

Dando Exemplo

O Vaticano acaba de inaugurar um sistema de captação de energia solar. O projeto de 1.200.000 euros foi desenvolvido e doado pelas empresas alemãs SolarWorld e Sma Solar Technology, consentirá uma economia de 80 toneladas de petróleo por ano, evitando a produção de aproximadamente 225 toneladas de CO2.
São 2.400 painéis instalados no telhado da sala Paulo VI, onde ocorrem as audiências oficiais e os concertos, uma área de 5.000 metros quadrados e produzirá 300 megawatts/ano de energia limpa e renovável.
O sistema instalado não é capaz de produzir toda a energia de que o Vaticano necessita, mas a ideia é não parar por aqui. Espero que o exemplo repercuta por todo o mundo e que seja muito, muito copiado.

A última chance da indústria automobilística


Lembro de ter ficado bastante intrigado quando descobri, ao cobrir a edição de 1996 da tradicional corrida de calhambeques London-Brighton, que os primeiros automóveis do mundo – basicamente carruagens sem os cavalos – eram modelos elétricos! O primeiro foi inventado em 1830. Em 1920, 90% dos taxis de Nova Iorque eram movidos a bateria, época em que todos os bondes das cidades eram elétricos também – leia mais aqui.
Pensei: “Ora, como não desenvolveram a idéia desde então?” Bem, até desenvolveram, mas meio que em segundo plano, já que os motores a diesel e gasolina eram muito mais lucrativos. O petróleo era baratinho, fácil e abundante, e coisas como poluição do ar e doenças respiratórias, denunciadas por proto-ambientalistas ao longo do século 20, eram externalidades aceitáveis pelo bem do progresso.
Pois bem, quase um século depois, voltamos ao ponto de partida. O modelo de negócio baseado em carrões movidos a petróleo sofreu um grande baque com a crise financeira americana e o carro elétrico volta a ser uma opção – desta vez, até onde eu tenho lido, pra valer. As grandes fabricantes de carros dos EUA – Chrysler, GM e Ford – abriram o bico, estão na lona, implorando mais de US$ 30 bilhões para continuarem existindo. A população americana se diz contra o empréstimo, e muitos congressistas também. Eles sabem que, sem uma contrapardida equivalente, é jogar dinheiro no lixo. Muito dinheiro. Agora, qual seria uma contrapartida justa e viável? Certamente não estamos falando da baboseira de ver os altos executivos dessa indústria recebendo salários anuais de US$ 1
Ou essas empresas mudam pra valer, ou têm mais que ir pro buraco. Sim, porque se continuarem a tocar o negócio da forma como o fazem hoje, vão quebrar mais dia menos dia. Por que não, então, investir no futuro? Em projetos como Better Place, de um empresário israelense, que já despertou o interesse de países como Dinamarca, Austrália e Israel, além de alguns estados americanos, como a Califórnia e Havaí.
A idéia é criar uma extensa rede elétrica para alimentar os veículos por todo o país, com ênfase no transporte público. Mas quem quiser ter seu carrinho elétrico, sem problemas. Vai ser até mais fácil: você pagará pela quantidade de eletricidade que usar. E só. O carro pode ser até dado de graça. Um sistema semelhante ao que vem sendo adotado com sucesso na telefonia celular hoje. Só compra celular quem quiser algo exclusivo. A maioria, no entanto, vai adotar os modelos mais populares. Eu não compro um celular há quatro anos e ainda assim consegui ter bons aparelhos – hoje tenho um modelo smartphone razoavelmente bom. Genial, não? E o melhor: temos toda a tecnologia necessária para por esse projeto em prática.
Aí, GM, Chrysler e Ford! Querem mesmo sair do buraco? Então pensem com a sustentável cabeça de amanhã, não com a gananciosa e poluidora de ontem. Vai ser bom pra vocês e pra gente também!

Aposta Decisiva

A mãe natureza nos presenteou com todos estas belas paisagens para o deleite de nossos olhos, para nos fornecer alimentos, mas a partir deles tiramos também as energias térmica para nos aquecer ou a eletricidade para nosso conforto. Mas qual escolher para permitir que ela seja preservada e com ela nós também? Se pegarmos cada um dos componentes deste quebra-cabeças, e examinarmos como no quadro abaixo as vantagens (em cor de rosa!) e desvantagens (em cinza) de cada tipo, o que vai dar?

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Parece uma brincadeira de criança, né? Pois é o quebra-cabeças que todos os países do mundo estão enfrentando, compor sua matriz energética de modo a alcançar a quantidade de energia necessária para o crescimento do país e o conforto da população dentro de suas potencialidades e da disponibilidade no mercado mundial, com um olho no futuro, escolhendo a modalidade que trará menos impacto sobre o meio ambiente, para implementar uma situação sustentável.
A França optou pela energia nuclear como componente mais importante desta matriz, a Islândia pela geotermia, a China pelo carvão. O Brasil possui uma situação invejável, pois 45% de sua matriz energética é de fonte renovável.
Estas escolhas devem ser feitas sabendo que o futuro da planeta e das gerações futuras está em jogo. Você, em qual apostaria?

Verdinhas pelo verde, a boa notícia que queremos ler


Arnold Schwarzenegger pode estar bem cotado para ser o homem da energia de Obama, mas não corre sozinho nessa disputa. Outro nome meio óbvio é o de Al Gore. Após a derrota pro Bush Jr. em 2000, ganhou destaque mundial explorando o tema convenientemente e hoje tem uma das propostas mais audaciosas quando o assunto é remodelação da forma como produzimos e consumimos energia para enfrentar as mudanças climáticas, o projeto Repower America. Em linhas gerais, prevê a geração de 100% da energia consumida nos EUA por meio de fontes renováveis – basicamente eólica (27%), solar (16%) e eficiência energética (28%) – num prazo de 10 anos. Biocombustíveis e energia geotérmica teriam seu espaço também, com 3% cada. Nenhuma hidrelétrica ou usina nuclear seria construída no período, ficando as atuais com 23% do novo cenário. Em 2019, nada de petróleo ou carvão. Não é fraco não.
O projeto é bem próximo ao proposto pelo Greenpeace e Conselho Europeu de Energias Renováveis, o [R]evolução Energética, tecnica e politicamente, já que vê uma imensa oportunidade na crise gigante que surfamos sabe-se lá como.
Se os americanos são bons mesmos em fazer dinheiro, mesmo quando ele é escasso, a hora é essa. As ações de empresas do setor estão fervilhando. Na ressaca da orgia do capital especulativo, talvez testemunhemos novos tempos de investimentos voltados prioritariamente à produção do bem, que permitirá gerar empregos e renda. A ONU já cantou a pedra: milhões de empregos podem ser gerados até 2030 com investimentos em energias verdes. A recessão já vem provocando o curioso movimento de deixar algumas empresas mais verdes – como tem feito com a indústria de eletrônicos.
Seja com Schwarzzie ou Gore, quero ver as doletas verdinhas salvando o planeta, não apenas depredando-o em benefício próprio. Compartilho da utopia promovida pelo pessoal do Yes Man, quero ver um NYT recheado de boas notícias – o que não significa que serão fáceis. Nem perfeitas. Que sejam honestas, já basta.

Quem quiser conferir a íntegra da edição fake do NYT, só com notícias que gostaríamos de ver publicadas, acesse nytimes-se.com.
No vídeo abaixo, vc saberá como foi engendrada essa ação genial, bem como verá um representante do NYT ficar putinho (1min22s) ao ser questionado sobre Judith Miller, quando defendia a posição do jornal na cobertura da guerra do Iraque.


New York Times Special Edition Video News Release – Nov. 12, 2008 from H Schweppes on Vimeo.

Capra e o Da Vinci ecológico


“Em primeiro lugar, queria agradecê-lo por ter escrito O Tao da Física. Assim que terminei de ler pensei que tinha que fazer isso e agora tenho a oportunidade. Obrigado, sr. Capra.” O deslumbramento do jovem que sentava imediatamente atrás de mim no Teatro Eva Herz, da Livraria Cultura da Paulista, era evidente e, por que não, comovente. Muitos dos que o aplaudiram provavelmente queriam fazer o mesmo e rolou uma identificação imediata. O rapaz foi aplaudido por uma gente sorridente, bonita, harmoniosa, em comunhão – entre si e com com Fritjof Capra, que deu palestra sobre seu livro A Ciência de Leonardo da Vinci (lançamento da editora Cultrix).
Eu logo me identifiquei e relaxei um pouco. Estava tenso por ter que entrevistar Capra para a revista e o site do Greenpeace e também por voltar à rua depois de tempos para exercitar como se deve o ofício de jornalista. Uma coisa influênciou na outra, mas na hora H, foi que foi. Dei até sorte, porque os outros dois jornalistas que compartilhariam comigo os escassos 30 minutos disponíveis para entrevista não apareceram. Pude gravar tranquilo minhas 7 perguntas sobre ecologia, meio ambiente, sustentabilidade, as quais ele respondeu sem rodeios e com firmeza, não deixando transparecer nenhum incômodo por falar de coisas que não eram bem a razão dele estar ali. Se bem que em termos. Capra é ecologista de longa data e Da Vinci, idem.
Ao contrário da trupe do bem que enfrentou chuva e engarrafamento para ouvi-lo falar, Capra é sisudo, circunspecto, um tanto quanto impaciente, mas sempre elegante e atencioso. Conheço bem o tipo, já tive chefe austríaco no Greenpeace. Me atendeu prontamente quando fui apresentado e respondeu com calma e prestatividade às minhas indagações feitas num inglês inseguro. Da mesma forma atendeu a uma dupla de ciclistas que, pouco antes da palestra começar, entregou a ele um favo de mel, e ouvi atentamente como fazia para degustar aquilo. “É colocar na boca e mastigar de leve como chiclete. Mas dá pra engulir, sem problema, é só cera”, explicou um deles. Tirou fotos com alguns, autografou dezenas de livros (com um simples “Para fulano”, mas enfim…) para a legião de estudantes, artistas, leitores casuais, empresários, escritores e até uma policial militar que lotaram o teatro.
Em uma hora de palestra, com uma apresentação de slides trazendo citações e desenhos de Leonardo da Vinci, o escritor de 69 anos revelou aspectos ambientalistas no artista toscano que eu sinceramente desconhecia solenemente. O próprio Capra disse ter se surpreendido ao achar a seguinte frase nos alfarrábios consultados :

As virtudes da grama, das pedras e das árvores não se encontram em seu ser porque os seres humanos as conhecem… A grama é nobre em si própria sem a ajuda de linguagens ou letras humanas.

É bom observar que as anotações nas quase 6 mil páginas estudadas por Capra fora feitas pelo gênio renascentista em italiano da época e escritas da direita para a esquerda, como os árabes fazem – Da Vinci era canhoto e inovou até na hora de por seus pensamentos no papel. Imagina a dificuldade para quem tem que destrinchar os textos hoje.
Enfim, o que chamou a atenção de Capra foi que Da Vinci antecipou em séculos o que se chama hoje de deep ecology: todos os seres vivos fazem parte de uma grande teia de vida, vivemos numa imensa gaia, e nenhuma espécie é mais importante do que outra. A ciência deve andar em harmonia com a natureza, não dominá-la.
Para Fritjof Capra, físico teórico e escritor que há anos promove a educação ecológica, principalmente para crianças e adolescentes, foi um achado e tanto. A investigação sobre o mestre italiano lhe mostrou que os desenhos dele eram complexos diagramas científicos, porque para estudar a natureza, era preciso desenhá-la; e para desenhá-la, era preciso estudá-la. Combinou ciência, estética e ética como ninguém, quase sempre orientada por uma filosofia ecológica lato sensu. Dá o que pensar saber que Da Vinci ficou obscuro por séculos. Que seja fonte de inspiração nesses novos tempos que se avizinham, com mudanças importantes acontecendo no mundo. Obama na Casa Branca, sustentabilidade e ecologia na ordem do dia, todo mundo pensando no que pode fazer para contribuir.
As perguntas da platéia, ao final da palestra, refletiram essa consciência coletiva de que algo precisa ser feito para mudar o estado das coisas e Capra acabou discutindo ali muito do que falou em nossa entrevista: Obama, o papel da sociedade civil na consolidação desse outro mundo possível, as chances de termos um mundo realmente sustentável. Publico aqui assim que sair a revista do Greenpeace, valeu?
Enquanto isso, curta uma das aventuras do Riuston, o valente entregador da livraria Cultura. O blog é divertido também. Descobri navegando pela internet, pra juntar essa coleção de links deste blog…

O presidente pós-ambiental


O que significa a eleição de Barak Obama para as políticas de combate às mudanças climáticas e reforma da matriz energética – americana e mundial? É o que tenta responder Adam Stein, co-fundador da Terra Pass, organização focada em reduzir nossa pegada de carbono no planeta, em artigo publicado em seu site e replicado por vários outros pela internet. Segundo ele:

Obama tem sido frequentemente apontado como o primeiro político pós-racial. Quando nós um dia avaliarmos sua gestão, podermos vê-lo na verdade como o primeiro presidente pós-ambiental, o líder que foi capaz de conectar os pontos dos temas energia, economia e segurança de uma forma a elevar esses assuntos acima dos interesses de certos grupos e colocá-los no centro da agenda política.

A íntegra do artigo de Stein pode ser lida aqui.
Obama terá um trabalho danado para consertar os estragos feitos por oito anos de administração Bush Jr. na imagem dos Estados Unidos mundo afora. Se der o impulso necessário às políticas adequadas para equilibrar o saldo entre desenvolvimento e conservação ambiental, vai novamente fazer história – e ganhar ares de divindade. Apesar de ser um pouco cético em relação a isso, espero sinceramente que Obama aproveite a oportunidade para mostrar que os EUA podem sim liderar o planeta, mas de uma forma benigna.