O mar está para tubarão

Em alguns lugares, como o Recife, aqui no Brasil, estatísticas e notícias registram casos de turistas que, alheios aos avisos da presença desses animais, preferiram curtir a praia dentro da água e foram atacados por tubarões.

Não queremos culpar as vítimas pelos ataques, absolutamente; apenas ressaltar como é evidente que sabemos muito pouco sobre a mudança de comportamento dos tubarões nestas áreas de risco, e que campanhas de conscientização precisam ser mais intensamente divulgadas nestas regiões onde se registram ataques de tubarões.

100 milhões de tubarões são mortos por ano

O tubarão é um dos animais mais temidos do planeta. No entanto, a probabilidade de um ser humano ser atacado por um deles é relativamente pequena. Cem milhões de tubarões são mortos por humanos a cada ano. O tubarão tem um papel fundamental no ecossistema marinho e na natureza e é importantíssimo que as pessoas não o considerem um vilão.

O tubarão não é um comedor de gente, mas mordedor. Pela falta de alimento, ele pode estar procurando outros tipos de presa e confundindo o homem com uma delas. Entender as causas dos ataques serve, dentre outras coisas, para mostrar que ele não é o vilão do mar, como o imaginário popular construiu ao longo dos anos.”  – Otto Gadig, biólogo e professor da Universidade Estadual Paulista -Unesp ( leia mais)

Nossa querida bióloga  Lucia Malla, apaixonada por tubarões, animais  que considera “evolutivamente magnânimos e que vêm sendo dizimados por motivos desanimadores”,  já demonstrava, em 2006,  neste post: “Os tubarões de Recife“,  a preocupação com que mais pessoas passassem a entender a grande problemática ambiental que envolve o assunto dos ataques naquela região do Brasil.

LuciaMalla mergulhando com tubarões

Lucia lembra que, há cerca de 40 anos, eram raros os ataques de tubarão em Recife. Eles habitavam mais ao sul, em uma região costeira de manguezais, ideal para sua reprodução. Com a construção do Porto de Suape, em Pernambuco, destruiu-se o referido manguezal, e, com o hábitat destruído, os tubarões passaram a nadar mais ao norte , justamente onde está Recife, por suas águas mais quentes e com mais possibilidade de encontrarem alimentos.

Humanos não são parte da dieta de tubarões. Em geral, os ataques são reflexo de uma “petiscada” que o bicho dá em algo se movimentando na superfície da água que ele quer saber se é alimento. – Lucia Malla (Leia mais)

Quando o meio ambiente não é degradado e está equilibrado, os ataques não acontecem. Em muitos lugares, como Fernando de Noronha, por exemplo, os tubarões e seres humanos convivem em relativa harmonia: eles no mar, e as pessoas, na praia. Segundo Léo Veras, engenheiro de pesca e pesquisador de tubarões, não há registro de ataques  de tubarão a humanos, porque existe algo como “um sensato acordo de paz”.

É necessário que tratemos deste assunto com mais clareza sobre os perigos de um ataque, para as pessoas se conscientizarem de que, ao entrar no mar, a “casa” dos tubarões, correm risco de serem confundidas com alimentos destes animais. Talvez por falta de informação a respeito dos hábitos destes animais em águas turvas ou de não levarem tão a sério tais informações.

É ainda importante que, nesses locais onde se verificam maior presença de tubarões, os primeiros socorros  sejam mais eficientes, com linha direta IMEDIATA com o pessoal de emergência, com helicópteros para levar a vítima ao hospital mais rapidamente.

Os equipamentos dos salva-vidas nas praias precisam ser mais eficazes, com certeza, porém, acima de tudo, é urgente que haja mais educação ambiental por parte dos turistas e frequentadores dos locais perigosos, não apenas com placas de advertência, mas com informações detalhadas quanto aos hábitos destes animais e quanto ao nosso comportamento nestas áreas.

Sempre é bom lembrar que o mar é o lar natural dos tubarões. Nós somos as visitas e devemos respeitar o território deles. Temos muito a aprender ainda:

Deveríamos entrar no mar sabendo que atitudes de respeito e informação são fundamentais para a boa convivência entre nós, humanos, e os demais “donos” daquela casa. Com uma postura assim, é menor a probabilidade de acidentes acontecerem.(Lucia Malla)

 Afinal, o mar está para tubarão! Estes lindos.

 

Sua comida pode estar em extinção

Devido à pesca predatória, inúmeras espécies de peixes usadas como alimentos por nós, humanos, estão em extinção na África do Sul – o mesmo ocorre aqui no Brasil. Para alertar os moradores e os turistas sobre esse problema, organizações públicas, não governamentais e privadas se uniram na divulgação colando cartazes de alerta em diversos pontos públicos como no Two Oceans Aquarium, em Cape Town (Cidade do Cabo).

Os cartazes são simples. Neles, espécies peixes com nomes e ilustrações foram separadas em três categorias dentro das respectivas cores: green (verde), orange (laranja) e red (vermelho). Os peixes da categoria verde, como é o caso da anchova e do dourado, podem ser consumidos. O cartaz alerta para o consumo moderado das espécies colocadas na categoria laranja, como o bagre. Essas espécies correm risco de extinção, mas menos do que as inseridas na categoria vermelha como, por exemplo, o incomum peixe-serra. Veja aqui, no site da WWF, a lista completa.

Segundo a Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO), 85% dos estoques de peixes do mundo são superexplorados ou já foram explorados ao máximo. Para piorar a situação, estima-se que um quarto dos animais marinhos pescados são muitas vezes mortos ou desperdiçados por terem sido capturados acidentalmente.

Parece que os restaurantes de modo geral da África do Sul, graças a esse extenso alerta, têm evitado comercializar as espécies em risco de extinção – me corrija se eu estiver enganada. Mesmo assim, os peixes e alguns frutos do mar estão entre os principais alimentos consumidos por lá. Eu, por exemplo, vivi a base de lula e peixe – mais saborosos do que os daqui!

A África do Sul tem uma extensa área costeira (3.798 quilômetros). Lá, peixe e frutos do mar custa cerca de três vezes menos do que os consumidos no Sudeste do Brasil, sendo que a costa brasileira é de cerca de 8 mil quilômetros – mais que o dobro maior do que a sul-africana. Alguns estudos apontam maior quantidade de animais marinhos em águas frias como as da África do Sul. Essa explicação seria suficiente para justificar os preços mais altos dos frutos do mar por aqui, já que o litoral do Brasil é relativamente quente? Ou os peixes do Brasil correm mais risco por diversos motivos?

Enfim, os recursos marinhos são finitos. O que está sendo feito no Brasil para cuidar dessas espécies e desse ambiente tão especial?

 

Links de tubarão

– Doug Seifert escreveu um artigo bastante detalhado, cheio de comentários científicos e muito humano sobre um mundo sem tubarões. Vale cada minuto de leitura.

– A National Geographic fez um álbum de fotos deprimentes, das barbatanas de tubarão estripadas dos mesmos em Taiwan. Imagens chocantes, preparem o estômago.

– Por outro lado, as Ilhas Marshall declarou todo o país como santuário para os tubarões. É o maior santuário marinho para uma espécie do mundo. Que outros países sigam o exemplo.

– Os pequenos países-ilhotas, aliás, estão pedindo encarecidamente que se chegue a um acordo climático de corte de emissões de CO2 antes do fim de 2012. Lembrando que muitos destes países já estão sofrendo os efeitos das mudanças climáticas em suas costas.

– Ainda nesse tópico, recentemente assisti a um filme chamado “Miss South Pacific”, um documentário delicado sobre o papel das mulheres no desafio das mudanças climáticas nas nações do Pacífico. Muito bacana.

O tubarão-de-Galápagos foi extinto no Brasil. Motivo: sobrepesca. E não será a última espécie, infelizmente, a desaparecer por nossa conta.

– Pra finalizar, vi lá no Shark Defenders que o pessoal do The Coral Reef Alliance e do Pew Environment’s Group’s Global Shark Conservation Campaign lançou o filme Shark Hope, sobre a importância dos tubarões vivos para a cultura e economia de Fiji. Para assistir na íntegra, podem ir ao YouTube. O filme é muito bacaninha, e foi todo feito em Fiji – o sotaque do narrador é bem ilhéu, muito peculiar. 28 minutos que te farão pensar. 🙂

 

Tubarões protegidos na região Micronésia

Finalmente uma excelente notícia: representantes dos governos de 5 países da região Micronésia (Palau, Guam, Ilhas Marianas, Ilhas Marshall e Estados Federados da Micronésia – EFM) se reuniram semana passada em Palikir, capital da EFM, para passarem uma resolução [link em PDF] que inicia o processo de transformação de TODA a região micronésia em um santuário de tubarões.

Tubarão em recife de coral das Ilhas Marshall, região micronésia

Tubarão vai nadar mais tranquilo nas Ilhas Marshall...

Não é pouco, pessoal. Apesar da região micronésia ter pouquíssima terra, ela tem muito mar. Mais exatamente, cerca de 2 milhões de milhas quadradas – o  equivalente a uma Europa e meia (sem a Rússia) só de mar, muito mar.

Shark sanctuary map

A área circulada do mapa mostra onde será o maior santuário de tubarões do planeta.  (Mapa tirado daqui, modificado por mim.)

E é no mar que o tubarão vive. Portanto, guardar aquelas águas é ação-chave para uma proteção mais eficaz do grupo por todo o Pacífico, quiçá para o mundo todo, dada a natureza altamente migratória de boa parte das espécies de tubarão.

O processo de criação do santuário de tubarões pretende ser finalizado até dezembro de 2012 (daqui a pouco!), e proibirá a pesca e o finning de tubarões na região. Espera-se que tal processo legislativo se expanda e, aos moldes da lei que já vigora aqui no Havaí, incluirá a proibição do comércio, consumo e posse de barbatanas de tubarão – e se a lei for aprovada nesse nível de requinte, será a cereja do bolo da conservação dos tubarões da década.

Entretanto, sabendo-se que a região micronésia não está distante da China, Taiwan e Japão, maiores pescadores e consumidores de tubarão do planeta – e sabendo que a presença de frota pesqueira dos 3 países na região é intensa, e ainda mais, sabendo-se que a força econômica destes 3 sobre os habitantes da região é muito poderosa – , será extremamente interessante ver como a fiscalização de tal legislação ocorrerá. Eu torço muito para que seja efetiva, mas sei que não será tarefa simples.

Bandeira em Palikir, capital de Pohnpei

Bandeira da Micronésia no complexo federal de Palikir, capital dos EFM (é a Brasília deles, onde os prédios do governo se concentram). Neste local foi assinado a resolução que se compromete a criar a maior área de proteção de tubarões do planeta. Histórico – pros tubarões, pelo menos. 🙂

Mas há um outro adendo bacana a esta iniciativa já tão animadora: esta é a 1a vez que diversos países se juntam para legislar na prática a favor da conservação dos tubarões. 5 países de uma mesma região. Abrem um precedente fenomenal para que outras regiões costeiras de fronteira se juntem e possam elaborar iniciativas similares para a conservação da espécie. Parece que finalmente os grupos políticos passaram a entender uma realidade tão óbvia ululante: que os tubarões não sabem o que é fronteira, não pertencem a um país; que eles pertencem ao mar, e onde há mar, há necessidade de legislar por eles, independente de bandeira.

(Esta boa nova chegou no meu email via Shark Defenders.)

O mar não está para peixe! Graças ao bicho-homem.

Leiam, com atenção, a excelente reflexão que a queridíssima Luma faz em seu post O mar não está para peixe, publicado aqui, com a gentil autorização da autora:

pescaria

Como o salmão nos EUA, peixes no Brasil também tiveram sua população fortemente reduzida. A pesca está proibida para o Cherne-povoeiro e para o Mero, entre outros. O Cherne-povoeiro por ser uma espécie de crescimento lento, maturação sexual tardia e entre outros fatores, se tornou vulnerável à sobrepesca.

Em ciências pesqueiras, chama-se sobrepesca à situação em que a atividade pesqueira de uma espécie ou região deixa de ser sustentável, ou seja, quanto mais esforço de pesca se utilizar, menores são os rendimentos, seja do ponto de vista biológico, seja econômico.

“Em resumo, diversos trabalhos de pesquisa realizados, apontaram para a sobrepesca e risco de colapso dos chernes do Atlântico sul ocidental, levando à inclusão da população brasileira na Lista Vermelha da União Internacional para a Conservação da Natureza, sob a designação de ‘Criticamente ameaçada de extinção‘” (Mar-oceania/Biologia pesqueira, Seminários temáticos para a 3ª Conferência Nacional de C,T&I. Pág. 24 – de Silvio Jablonski)

O cherne-povoeiro, espécie de grande porte, também conhecido como cherne-pintado, é um peixe de águas tropicais do Atlântico sul e Pacífico. No Brasil ocorrem em todo o litoral, porém, a mais importante área de ocorrência e pesca da espécie é na costa do Rio Grande do Sul (Alô, Gaúchos!)

Na cidade de Arraial do Cabo, vizinha de Cabo Frio onde moro, encontra-se uma grande colônia de pescadores oriundos de Póvoa de Varzim/Portugal e o nome deste peixe veio desses “povoeiros” – primeiros pescadores que começaram a trabalhar com a espécie quando migraram em massa para o Brasil no final do século XIX.

O Cherne-povoeiro é um carnívoro voraz, alimenta-se de lulas, crustáceos e peixes demersais (animais marinhos que vivem em fundos arenosos ou rochosos). Solitários, costumeiramente via-os perto de boias em alto mar e em plataformas de petróleo. Não diferem dos “humanos” quando jovens quando se enganam com algumas companhias – vez ou outra, acompanham objetos flutuantes.

Antes da proibição, já haviam poucos peixes ao sul de Cabo Frio e é triste constatar que este peixe praticamente sumiu, perto do número deles que víamos em alto mar. Foi a então Ministra do Meio Ambiente Marina Silva que assinou em 2005, a instrução norminativa nº 37 proibindo a pesca do Cherne-povoeiro nas águas jurisdicionais brasileiras por 10 anos. Além da captura, também está proibida a comercialização do peixe, mas o bicho homem é que deveria ser extinto da face da terra, porque ele só destrói e nada constrói! Pois não é que em Outubro, cerca de 1 tonelada do peixe, foi apreendida em um depósito em São João do Meriti, por policiais da Delegacia de Proteção ao Meio Ambiente, ajudados por peritos do Instituto Carlos Éboli e funcionários do Ibama?

Se a pesca é proibida e escassa, como esses bandidos capturam os peixes? Existe uma grande tecnologia para isso – Os piratas dos mares, usam super computadores, aviões e detectam cardumes em qualquer ponto dos oceanos usando satélite.

Falo um pouquinho mais sobre essa questão na postagem “Vida Marinha“. Se as espécies marinhas estão no limite de sua reposição e se sabemos que o mar é a fonte de vida de todo o planeta, não respeitando esse ecossistema, estaremos deflagrando nossa destruição.

mar&oceanos

Você acha que já viu de tudo… durante 10 anos de pesquisas exaustivas, foi divulgado um “Censo da Vida Marinha“e oceanos foram vasculhados, das superfícies até as profundezas das fossas abissais, onde foram catalogadas mais de 250 mil espécies animais e plantas marinhas, 1,2 mil novas espécies adicionada ao volume anterior, 5 mil novos organismos coletados para estudo e apesar do número aparentar grandeza para nós, os cientistas adiantam que esta é apenas um parcela das espécies que vivem nos oceanos, podendo chegar perto de um milhão.

O bom desta pesquisa foi que revelou que algumas espécies que eram consideradas extintas, mortas a mais de 50 milhões de anos, ainda estão na ativa, como o “Camarão Jurássico”. Um outro lado dos oceanos foi revelado e exemplificado, tendo por base a comparação de que – em 1 litro de água do mar habitam 20 mil tipos diferentes de bactérias – micróbios oceânicos que produzem metade do oxigênio do planeta. Uma grande quantidade de microorganismos que torna a diversidade animal e vegetal quase insignificante se colocados em uma balança.

A conexão entre as espécies é enorme, partilhando até o mesmo DNA. Bem, somos os predadores e saibam que os corais estão branqueando, morrendo de fome, porque as algas que habitam dentro deles e que os alimentam, estão morrendo também. Muitas espécies de corais morrerão ainda neste ano de 2010 e isto tem muito a ver com a nossa falta de conexão com o mar ou melhor, responsabilidade com a vida.

Visitem o site do “Censo da Vida Marinha” – Cada imagem… uma viagem!

Lembre-se, consumo consciente!

Texto integrante do blogue Luz de Luma, yes party! | Cópia de texto somente mediante autorização, preserve os direitos autorais do editor |
Obrigada, Luma!

MAR 101

Oceans-book
Vi este livro numa vitrine de livraria. Já tinha visto o filme e pensei que o livro teria várias imagens que apareceram no filme – ledo engano. Quando folheei o dito e percebi que era um apanhado de textos relacionados ao mar, organizado por Jon Bowermaster, que não tinha quase foto nenhuma, decidi que comprar na versão digital era mais jogo. E li.
“Oceans” tecnicamente é escrito para complementar o filme da Disney que resenhei há alguns meses. Imaginei também que comentaria detalhes das filmagens – outro ledo engano. Apenas no primeiro capítulo, quando o responsável pelo filme é entrevistado, a gente aprende um pouco sobre o filme homônimo. E ele confirma minha suspeita, quando diz:
“Oceans não é um documentário; é uma ópera da vida selvagem, e cada animal fez a sua parte, contribuindo com algumas notas para a partitura completa. […] O espectador deve sentir esta emoção. “Oceans” não teve a intenção de explicar padrões de comportamento ou dar informações sobre as espécies. Não foi programado para ensinar, mas para fazer a audiência sentir. […] Nós tivemos todo tipo de ajuda, mas os cientistas não ditaram como fazer certas coisas. A gente simplesmente seguiu os animais; os animais nos guiaram, meio que dizendo o quê filmar, o que não filmar e como nós deveríamos nos sentir.”
Agora, se você acha que, porque o livro não é o que eu esperava, daqui pra frente minha resenha será negativa… ledo engano seu. O fato de não se segurar no filme dá mais força ao livro, engrandece-o. E eu terminei apelidando o livro carinhosamente de “MAR 101”. Porque é uma introdução às grandes questões sobre o mar que temos hoje em dia, sejam elas científicas, políticas, sociais, econômicas, artísticas… você escolhe o viés. Há capítulos para todo gosto – inclusive um escrito por um chef especialista em frutos do mar, que dá dicas de onde e como comprar peixes sem destruir (demais) os estoques dos oceanos.
(E se um ET aparecesse na minha frente hoje e me pedisse para explicar os oceanos, eu daria este livro de presente para ele ler.)
Nenhum capítulo é escrito em linguagem demasiado científica, pelo contrário: o público-alvo são todos nós, humanos com polegar opositor e telencéfalo desenvolvido – basta vontade para lê-lo. Um dos capítulos iniciais é escrito por “Her Deepness” Sylvia Earle, a oceanógrafa que quando fala, todos os apaixonados pelo mar escutam. Com a sensibilidade que lhe é peculiar, ela nos conta:
“Parado na praia e olhando para o mar, o menino diz: “Tem muuuuita água aí”. E o velho sábio oceanógrafo responde: “E isto é apenas o topo.”
E nos relembra:
“Nós devemos tomar conta dos oceanos como se nossa vida dependesse deles – porque, na verdade, ela depende.”
Oceans
Mas nem só de Sylvia Earle se sustenta o livro “Oceans”. Há dados interessantíssimos da interface política/ciência/ambiente trazidos pela diretora-mor do NOAA, a Agência Ambiental Americana que cuida das questões oceânicas e atmosféricas, que comenta:
“Embora eu seja uma cientista por formação, há muito tempo eu abandonei a busca pura e simples de conhecimento em prol de combinar minha experiência com a campanha de defesa [dos mares] e talvez um pouco de marketing social para conseguir avançar a causa maior da conservação. Nós simplesmente não temos mais tempo para esperar “consenso científico” em tudo antes de fazer algo perante o que está acontecendo com nosso planeta.” [grifo meu]
Há explicações sobre a ameaça atual aos golfinhos, aos tubarões, aos atuns, às tartarugas marinhas, aos recifes de corais, feita por estudiosos dos mesmos. Há análises recheadas de facetas sobre aquacultura, sobre sobrepesca. Há explicações sobre o processo de acidificação dos oceanos e sobre a fauna das profundezas. Há a história de como o Vórtex de Lixo do Pacífico foi descoberto e o que tem sido feito para gerenciá-lo. Há ponderações sobre o futuro dos mares na era das mudanças climáticas e da poluição desenfreada. Há também o engajamento hollywoodiano-ambiental de Leonardo Di Caprio, num capítulo curtíssimo cheio de frases fortes (ideal para vendas); e de Paul Watson, o controverso poderoso chefão do Sea Shepherd. Há o depoimento tocante do Presidente das Maldivas sobre o que deveríamos procurar como política adequada para o mar, cujas palavras que mais se destacaram para mim foram:
“Somente quando as pessoas começarem a pressionar seus líderes, quando políticos começarem a perder eleições por causa de questões ambientais, é que os mesmos políticos tratarão as mudanças climáticas com a seriedade merecida. […] Políticos raramente agem a não ser que seu eleitorado empurre-os a fazer algo. […] Culpar os outros por terem causado as mudanças climáticas não é necessariamente a melhor forma de solucionar este problema. O que foi feito, foi feito. Nós queremos focar no futuro, não no passado.”
Mas há também inúmeros capítulos com histórias pessoais de amor ao mar: pescadores, velejadores, surfistas, nadadores de longa distância. Há as curiosidades de criança da neta de Jacques Cousteau, e como seu avô a inspirou a ser oceanofílica. Há o que levou Pierce Brosnan, o (para mim eterno) James Bond, a se engajar pelas questões do mar. Há a inspiração para se mergulhar e descobrir esse enorme desconhecido azul em cada página, em cada linha. O livro termina aliás, com um convite providencial, típico da nossa realidade de quem está na chuva, ou melhor, na tempestade:
“Seu oceano. Você quer protegê-lo? Então você tem que se molhar.
Se molhando
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– Selecionei algumas frases simples, quiçá até simplórias, mas que me emocionaram ou me fizerem parar, respirar e refletir:
“It struck me at that moment […] that I truly need the ocean. Not like one needs food or shelter, but more like one needs love.”
“We humans tend to live with an illusion of separateness, thinking that we are separate from each other as individuals and that we are separate nations, divided by oceans, all separate from nature. But the reality is that we are all united by our dependence on this planet, on this ocean.”
“If ‘more is better’ and that’s the only mantra we have, we’re doomed.”
“The plastic water bottle epitomizes the absurdity of our throwaway society. It takes 2 liters of water to manufacture a one-liter plastic bottle.”
“We need to give the ocean a rest.”
“For anyone who insists that the marine conservation situation isn’t really as bad as we might make it out to be, they probably haven’t been to the coast of Taiwan.”
Mitigation is really about avoiding the unmanageable and adaptation is about managing the unavoidable.” (ADOREI!)
“I believe one of the best ways to get a message out to the public and to influence decision makers is to use the power of celebrity and the media to deliver the message. My experience is that you can put the brightest scientist or the world’s greatest expert on any given subject in front of people and more often than not, the audience will get glassy-eyed and lose attention. But put a passionate celebrity in front of them delivering exactly the same message, someone the listeners believe they know and relate to, and they will pay attention.”
“The biggest threat of all? Human indifference. The ocean seems a remote place to many people, but it is the life-support system of the entire planet.”
“The world can certainly afford marine reserves. What it can’t afford is to be without them any longer.”

“Vac from the sea” – O aspirador que vem do mar

Cecilia Nord, vice-presidente da Electrolux: “Existem ilhas de plásticos […] que flutuam nos nossos oceanos. No entanto, em terra, se luta para apoderar-se de suficiente matéria plástica para satisfazer a demanda de aspiradores de pó sustentáveis.”
Teria sido a necessidade de suprir a demanda aliada a constatação das ilhas de plástico nos oceanos a dar vida a um novo projeto de sensibilização, com o objetivo de transformar essas imensas ilhas de lixo flutuante em matéria-prima para a produção de eletrodomésticos. “Vac from the sea” – o aspirador que vem do mar – é o projeto “ético” da Electrolux que prevê a coleta de detritos plásticos das águas do mundo inteiro para produzir 5 modelos de aspiradores de pó.

Ramsvik, uma reserva natural da Suécia, é um dos primeiros lugares onde a Electrolux iniciou a coleta de plástico. Há alguns dias a comunidade local aderiu à iniciativa recolhendo o lixo no mar. O problema é grande, na região, pois uma enorme quantidade de detritos atinge as costas da Suécia através das marés e dos ventos. Quando o lixo atinge a praia é recolhido e queimado, apesar de 80% desse material ser plástico. Parte do lixo acaba contaminando a flora marinha, entre algas e fendas de rochas. Quando inicia o processo de deterioração, o plástico se divide em partes menores, que podem ser ingeridos pelos peixes.
Outro problema a ser enfrentado e que a Electrolux se propõe a fazer, é a separação dos diversos tipos de material, o que dificulta muito o processo de reciclagem. Além dos aditivos químicos, corantes, etc. Ou seja: cada plástico deve ser reciclado separadamente. Mas a reciclagem do plástico tornou-se crucial para a produção de aparelhos sustentáveis, cada vez mais exigidos pelos consumidores europeus. A versatilidade do material, o custo relativamente baixo e a possibilidade de reutilizá-lo diversas vezes, faz com que a Electrolux busque novas fontes de matéria-prima ao mesmo tempo em que promove um projeto “ético” de porte mundial. No final das contas, o impacto será positivo, mas se todo o material plástico dos principais vórtices de lixo dos oceanos for recolhido, é prudente que a Electrolux produza os aspiradores com baterias recarregáveis com energia solar, ou vai faltar eletricidade para tanto aspirador.
A empresa tem uma conta no Twitter sobre o projeto, um blog no site, uma página no Facebook e dá dicas de como participar.
As imagens são do site da própria empresa.

Tubarão – O grande predador

” ‘O grande predador’. É assim que a maior parte dos tubarões é conhecida. A fama faz sentido ao levar em consideração que são realmente animais carnívoros e ajudam a equilibrar o ecossistema a partir da nobre posição que ocupam no topo da cadeia alimentar. Mas há exageros na reputação. Os tubarões são os predadores mais importantes para a manutenção do equilíbrio do ecossistema coralino, ajudando no controle populacional dos recifes. Mas não evoluíram comendo animais terrestres, como o homem. Se eles desaparecessem, o ecossistema correria o sério risco de colapsar – um caso clássico aconteceu numa comunidade ilhéu próxima a Austrália: depois de todos os tubarões pescados, o recife de coral colapsou, vítima da insustentabilidade sem o predador mais voraz.
/…/ Os tubarões são hoje um dos grupos de animais mais dizimados pelo homem. Cerca de 100 milhões deles são pescados anualmente, para atender a uma demanda crescente pela carne e barbatanas no mercado global, incluindo a indústria de cosméticos, que utiliza uma substância do fígado da espécie, o esqualeno, na produção de cremes. A crença popular propaga que o consumo de produtos derivados de tubarão pode trazer uma série de benefícios à saúde, incluindo o combate ao câncer; porém, estudos científicos já desbancaram tais mitos e adicionaram o agravante de que a carne e a barbatana do tubarão são ricas em mercúrio, um metal pesado extremamente nocivo à saúde humana. Caso o ritmo de pesca desses animais não diminua, todo o ecossistema marinho corre o risco de ser degradado irreversivelmente, contribuindo para o desaparecimento de inúmeras espécies”
Trechos do livro “Jardins Marinhos Tropicais.”
Muitas vezes nos lamentamos de que a ciência usa uma linguagem complicada demais, elitista e distanciada do nosso dia-a-dia. Pois esse livro foi escrito por dois biólogos marinhos com textos e fotografias incríveis, acessíveis a quem quer que tenha interesse pelo argumento ou simplesmente por belas fotos. O livro tem o patrocínio da Petrobrás, empresa brasileira de petróleo. Esse mesmo petróleo que tanto combatemos e que está presente na nossa vida muito mais do que imaginamos: em pneus, cosméticos, no chiclete e em muitos outros lugares além do combustível. E alguém poderia perguntar se esse hábito de patrocinar projetos importantes como este livro não seria uma maneira de “limpar a barra” da empresa. Pessoalmente, acredito em uma sociedade sem petróleo em um futuro muito breve, mas tenho certeza de que a Petrobrás estará neste futuro, pois creio que eles também apostam nessa sociedade e estão se preparando para continuar presentes. Com ou sem petróleo.
Compre o seu exemplar, para deleite próprio ou para presentear. E lembre-se de voltar aqui para me agradecer. 🙂

Água-viva – Medusa

“Curiosamente, em Palau, na Micronésia, um grupo de águas-vivas perdeu evolutivamemte a capacidade urticante. As águas vivas do gênero Mastigias estão distribuídas pelos mares tropicais, mas em Palau um processo geológico ocorrido em trê locais diferentes do arquipélago – o fechamento de uma saída direta para o mar e a consequente formação de lagos de água salgada conectados ao mar apenas por infiltração – isolou uma população de Mastigias dentro do lago. Colateralmente, afastou-as também dos principais predadores. Com o passar do tempo, as águas-vivas evoluíram perdendo a capacidade urticante. Tornou-se um desperdício energético produzir nematócitos que não seriam mais necessários naquele ambiente novo sem predadores. Com isso, a população de águas-vivas que hoje vivem no chamado Lago das Águas-Vivas em Palau não libera nenhuma toxina ao ser tocada, e o local virou ponto de ecoturismo mundial.”
Trecho do livro “Jardins Marinhos Tropicais” do André Seale. Na realidade o livro foi escrito por dois biólogos marinhos, o André e a Lucia, com informações preciosas e fotos de um dos melhores fotógrafos marinhos do mundo. Comprei o meu exemplar e não me canso de folhear, admirar as fotos e saciar a minha curiosidade com as informações que o livro oferece. Se você ainda não comprou o seu, sugiro de coração que o faça logo. Também é uma opção muito chique para presentear, mesmo sabendo que esse livro jamais ficará largado em cima de uma mesa de centro qualquer, como aqueles livros que ninguém jamais abrirá. Se quiser saber mais, clique aqui.

Recifes de coral

“Estima-se que os recifes de coral começaram a formar-se há 475 milhões de anos, no período Ordoviciano. Desde então, a fauna aquática teve tempo suficiente para desenvolver uma diversidade exuberante, e gradativamente os animais se foram adaptando ao ecossistema em constante evolução. Recife é uma denominação generalizada para rochedos ou uma série de cochedos próximos à costa. Os recifes de coral são especificamente os formados por acúmulo de carbonato de cálcio derivado do exoesqueleto calcário dos corais, animais marinhos com estrutura de pólipo. Conhecem-se atualmente cerca de 6.200 espécies de corais ao todo.
/…/ Atualmente os ecossistemas de corais tropicais são de longe os ambientes aquáticos mais biodiversos do planeta, compondo uma estrutura viva robusta visível até quando se está em órbita no espaço.
/…/ Os corais são muitas vezes confundidos com rochas ou plantas pela aparência imóvel e por vezes cheia de ‘galhos’. Mas são na realidade animais sésseis. A parte viva dos corais é composta por pólipos, estruturas cilíndricas com a base presa ao substrato, que geralmente possuem tentáculos e podem existir isoladamente ou em colônias. Os recifes de coral são, na maioria das ocorrências, pólipos coloniais que estão constantemente extraindo cálcio da água para o crescimento estrutural e proteção na forma de carbonato de cálcio.”
Trechos do livro “Jardins Marinhos Tropicais.”
Pelas informações científicas específicas sobre um assunto tão fascinante, este livro deveria ser divulgado por todas as publicações científicas interessadas em diminuir a distância entre ciência e sociedade. Pelas qualidade e espetáculo das fotos, por publicações que tratam de arte.