FALÁCIA

carro-onibus-bicicleta

Há uma grande falácia na imagem acima, propagada como solução para todos os males.

A uma, se colocássemos todas as pessoas que andam de automóvel para andar de ônibus, estaríamos simplesmente trocando o engarrafamento de automóveis pelo engarrafamento de ônibus. A imagem, maliciosamente, mostra apenas UM ônibus, mas não mostra quantos, no total, seriam necessários para a substituição proposta.

A duas, Não sei qual fábrica de bicicletas seria capaz de produzir 190 milhões de bicicletas em tão curto espaço de tempo, como a imagem parece fazer crer.

A três, não levam em consideração a realidade geográfica das cidades. Tomando Porto Alegre como exemplo, uma cidade que vive 8 meses do ano abaixo de mau tempo e com uma topografia 80% constituída de morros, não sei como alguém poderá voltar do trabalho de bicicleta “ladeira acima”. Descer é fácil, afinal, “pra baixo todo santo ajuda”. Quero ver é ter que subir a Protásio todos os dias depois de oito horas de trabalho, carregando a cria na garupa!

E seriam milhares as razões a apontar que quem pensa e divulga esse tipo “raso” de solução é gente que definitivamente não pensa a cidade.

Sem falar nos caminhões que fazem a entrega da Smart TV que todo mundo agora pode comprar… Ok! Da simples logística que mantém nosso reles afã consumista…

Há que ter clareza quanto ao que seja uma cidade. Não somos mais cidades de encontro de mercadores dos séculos XVII ou XVIII; sequer industriais empregadores de mão de obra barata dos séculos XIX e XX.

E, no entanto, continuamos a ser medievais ao resolver os problemas das nossas cidades…

Decreto Ecológico

O texto a seguir foi escrito pelo meu querido amigo Nelson Valente (@Escritor4). Nelson é professor univesitário, jornalista e escritor e, além disso, um partícipe de grande e importante parte da história recente do Brasil. Com o título acima, ele publicou, em outubro de 2010, no Jornal O REBATE, uma verdadeira aula de legislação ambiental comparada, que vale o resgate, para que não se perca nas brumas da poluição… Ei-lo:

Em 1961, o Presidente da República tinha uma certa competência legislativa exercida através de Decretos, graças à Constituição de 1946. Saulo Ramos incentivou muito Jânio a usar de tal competência, inclusive cometendo algumas inconstitucionalidades, até hoje não contestadas. Não era difícil provocar o entusiasmo de Jânio que, excessivamente inteligente, captava rapidamente idéias novas, sobretudo se fosse de interesse público. Assim, Jânio e Saulo, numa conversa a sós, sem palpiteiros, discutiram longamente um decreto em defesa da ecologia e do meio ambiente, assunto desconhecido e misterioso, inclusive no exterior. Os dois, porém e atrevidamente, soltaram a imaginação e o pensamento criativo, concluindo que era preciso regulamentar a defesa do meio ambiente. – Redija hoje, que eu assino amanhã! Hoje, sem falta, mas inclua tudo o que discutimos – Mas hoje é sábado e amanhã é domingo. É preciso colher a assinatura do Ministro da Agricultura para referendar o decreto. E talvez de outros Ministros. – Não interessa. Quero o decreto amanhã. Talvez seja o domingo o dia em que os brasileiros menos estragam a natureza. Um bom dia para assiná-lo. Claro que somente recebeu a minuta na segunda-feira e ele próprio, com estremo entusiasmo, redigiu muitos dispositivos. Editou-se o Decreto n° 50.877, em 29 de julho de 1961, um dos primeiros atos normativos, em favor do meio ambiente, editados no mundo! Para se ter a idéia do pioneirismo, a lei de proteção às águas, na Itália, foi editada muito depois, é de 1976. No Canadá, a norma equivalente é de 1970 e na Suécia, é de 1969. Na Bélgica e Holanda, o direito positivo passa a editar normas ambientais, sobretudo relativas à defesa das águas, na década de 1980, embora a Holanda tenha tratado, em lei, da poluição das águas em 1969 e a Bélgica em 1971. A França, que costuma se antecipar às legislações européias,surgiu com o regramento ambiental somente em 1971 – Lei 76-633, de 19 de julho. Na Alemanha, a lei federal, que apenas sugere precauções para evitar efeitos prejudiciais ao ambiente, é datada de 15 de março de 1974, aperfeiçoada pela lei de proteção às águas em 1976. No Japão, a disciplina legal para a punição dos crimes “relativos à poluição ambiental com efeitos adversos sobre a saúde das pessoas” é de 1970. Nos Estados Unidos, as normas de proteção às águas datam de 1972 e, na Suiça, de 1971. Na Argélia, a legislação ambiental é de 1983, quando a lei 83-03, cuida da poluição das águas, proibindo o “lançamento de substâncias sólidas, líquidas ou gasosas, agentes patogênicos, em quantidade e em concentração de toxidade suscetível de causar agressão à saúde pública, à fauna e à flora ou prejudicar o desenvolvimento econômico” (art. 99). Como se vê, o texto reproduz, vinte e dois anos depois, a norma brasileira, editada por Jânio Quadros em 1961. Na Inglaterra, centro de tantos movimentos ecologistas, a lei de Controle da Poluição surgiu somente em 1974 e cuida, sobretudo, de descarga e efluentes industriais nos esgotos públicos (art. 43), embora passe pela poluição atmosférica (art. 75) e pela poluição acústica (art. 57 a 74). Impõe-se registrar, pela importância e pela larga previsão, o Decreto n° 50.877, de 29 de julho de 1961, do Presidente Jânio Quadros, dispondo sobre o lançamento de resíduos tóxicos ou oleosos nas águas interiores ou litorâneas. O ato normativo de Jânio Quadros proibiu terminantemente a limpeza de motores de navios no mar territorial brasileiro e foi mais longe: regulou o lançamento “às águas de resíduos líquidos, sólidos ou gasosos, domiciliares ou industriais, in natura ou depois de tratados”, permitindo-os somente quando “essa operação não implique na POLUIÇÃO das águas receptoras”. Neste decreto, a palavra “poluição” ingressou no direito positivo brasileiro com o sentido que tem hoje, diverso ou mais ampliado daquele adotado pelo verbo “poluir” do nosso Código Penal. Está definida pela própria norma em seu artigo 3°, verbis: “Para os efeitos deste Decreto, considera-se poluição qualquer alteração das propriedades físicas, químicas ou biológicas das águas, que possa importar em prejuízo à saúde, à segurança e ao bem-estar das populações e ainda comprometer a sua utilização para fins agrícolas, industriais, comerciais, recreativos e, principalmente, a existência normal da fauna aquática.” Ironia do destino: quase trinta anos depois, Jânio Quadros era prefeito de São Paulo e Saulo Ramos Ministro da Justiça. Um dia Saulo visitou o ex-presidente. Entre muitos assuntos, lembraram do decreto ecológico. E lamentaram: se aquele decreto houvesse sido respeitado e aplicado, São Paulo não teria perdido os rios Pinheiros e Tietê.

 

 

Por uma infância mais sustentável

Cidadãos unidos por uma infância sustentável

O que publicidade infantil tem a ver com sustentabilidade? Provavelmente um leitor deste blog já tem a resposta na ponta da língua: tudo!

“A publicidade infantil é danosa às crianças quando as pressiona a desejar cada vez mais bens de consumo, associando-os a um discurso enganoso de alegria, felicidade e status social. Além de trazer sofrimento às crianças que não podem obter esses bens devido à falta de recursos financeiros, essa pressão não pode ser devidamente elaborada pelos pequenos, cujo senso crítico ainda está em desenvolvimento.”

Os atuais níveis de consumo de grande parte dos habitantes desse nosso mundão estão muito além daquilo que o planeta pode suportar. Por isso, sempre defendemos aqui no Faça a sua parte uma reflexão sobre o que, por que e como consumimos. O famoso primeiro “erre”: repensar. Do jeito que as coisas estão, sabemos que não podem ficar.

“[…]estamos diante de um novo fato: pela primeira vez na história humana, se questiona a forma como estamos consumindo o planeta Terra. As crianças de hoje serão responsáveis pelo planeta de amanhã. Mas, ao invés de serem educados para se tornarem cidadãos conscientes, eles estão sendo formados consumidores desde a mais tenra idade.”

Sim, é aí que começa a construção desses hábitos de consumo que, muitas vezes, levamos conosco pela vida inteira: na infância. E é aí que entram os efeitos negativos da publicidade infantil da maneira como é feita hoje no Brasil (em em muitas partes do mundo também). As empresas e publicitários precisam repensar a maneira como se comunicam com nossas crianças. E o Estado precisa nos ajudar nessa tarefa, fornecendo, no mínimo dos mínimos, diretrizes norteadoras para proteger a infância do atual bombardeio publicitário.

“[…]defendemos que, para cumprir nossa responsabilidade de educar nossos filhos para a cidadania e a sustentabilidade, precisamos do apoio efetivo do Estado e da responsabilização efetiva das empresas privadas, dos veículos de comunicação e das agências de publicidade.”

Para um futuro sustentável, precisamos assegurar que os valores da infância que realmente importam sejam defendidos. E, hoje, a publicidade infantil não está fazendo seu papel adequadamente.

“O excesso de propagandas e o conteúdo manipulatório delas dificulta uma educação cidadã e sustentável, a qual todos desejamos.”

Por esse motivo, convido vocês a conhecerem o movimento Infância Livre de Consumismo (no blog, no Twitter e no Facebook), que hoje está promovendo a blogagem coletiva #desocupaCONAR para mostrar que não estamos satisfeitos com a atual autorregulamentação a que o setor é submetido, já que esta tem se mostrado ineficiente em punir e evitar abusos na publicidade infantil.

Essa blogagem está ocorrendo hoje porque amanhã, dia 3 de julho de 2012, será um dia marcante para o movimento, que estará em Brasília participando de uma audiência pública referente ao Projeto de Lei 5921/01, que pretende determinar um novo regramento para a publicidade infantil no Brasil. Pela primeira vez, os pais e mães serão representados num evento dessa grandeza!

Então vamos juntos, pois um mundo melhor é para todos.

(Nota: os trechos entre aspas e em itálico foram retirados da descrição do movimento Infância Livre de Consumismo.)

Sobre turismo responsável

Turismo responsavel

Começa amanhã, segunda-feira, dia 18 de junho de 2012, o VI Congresso Internacional sobre Turismo Responsável. O evento já foi sediado em anos anteriores em Omã, em Belize, na Índia, no Canadá e na Cidade do Cabo, e este ano, nossa querida São Paulo é a sede – mais precisamente a Escola de Artes, Ciências e Humanidades da USP. Serão 3 dias de discussões sobre os rumos do turismo em termos de cidadania e responsabilidade social, econômica, política e ambiental. Soa bacana.

Mas eu encasqueto com o termo, “turismo responsável”. Porque afinal todo turismo deveria ser encarado primordialmente com responsabilidade, por governos, turistas, oferecedores de serviço, etc. – e incluo blogueiros nesse balaio, quando indicam um passeio ou afim. Então acho meio estranho ter que adjetivar o turismo assim, “responsável”. Mas é claro, entendo o cerne do problema: o que a gente vê por aí de exemplos de turismo “irresponsável” com a população e o ambiente local não está no gibi. Infelizmente, o adjetivo se faz necessário.

A idéia do “turismo responsável” é focar na busca por uma melhor experiência e qualidade de vida tanto pro turista quando para o morador local, primordialmente encarando o turismo como uma indústria mais eficiente nesta busca e na diminuição da desigualdade sócio-econômica dos diferentes destinos. Em resumo, é a busca do turismo “sustentável” (outra palavra complicada…). E na prática, é o turismo em que todos ganham: destino, turistas, comunidade local, ambiente.

Mas turismo responsável (e sustentável) envolve na prática outros aspectos menos cheios de palavreado. Nós, humanos, impactamos o ambiente, esse é um fato praticamente indisputável. E não há situação de turismo em que não se impacte de alguma forma – não vivemos no vácuo, nossas ações sempre gerarão reações e consequências. Então, a meu ver, a questão que se coloca aqui é: como envolvidos no turismo, o que fazemos para diminuir esse impacto? Três tipos de ações surgem:

1) Ações individuais: praticadas pelo indivíduo, turista, prestador de serviço ou membros da comunidade local. Exemplo: “serviços” que hotelaria, restaurantes e afins oferecem a seus clientes com o selo “ecológico” (ou qualquer coisa nesse sentido). Tipo, só trocar as toalhas do apartamento uma vez durante a estadia da pessoa, ou gastar menos tempo tomando banho, para economizar água.

2) Ações coletivas: envolvem a comunidade local, o conjunto dos prestadores de serviço e/ou turistas. Exemplo: decidir empregar (ou se esforçar para empregar) em posições de destaque no gerenciamento de atividades turísticas pessoas locais e/ou que entendam o benefício prático real daquela atividade econômica para a comunidade local. (E empregar sem condescendência, que é uma das grandes pragas das políticas de “inclusão comunitária” no setor de turismo.)

3) Ações políticas: envolvem todo o grupo dos envolvidos em turismo, exercendo sua cidadania e voz sobre as autoridades oficiais competentes, na busca de um resultado positivo para o destino em questão. Exemplo: comunidade e prestadores de serviço se organizam para pedir a declaração de uma área como parque municipal/estadual/nacional.

Entretanto, não dá pra pensar em turismo responsável com ações de apenas um formato. Há de se buscar uma harmonia entre os 3 tipos de ações. Afinal, de pouco adianta um hotel oferecer opções “ecosustentáveis” aos seus clientes, se foi construído sem consideração ao manguezal ao redor. Não podemos tampouco encarar a questão só no âmbito político – embora o comprometimento político com o sócio-econômico num nível macro seja fundamental e muito mais próximo da comunidade local, é necessário que as pessoas, principalmente os turistas, entendam que escolhas individuais no curto período em que visitam um destino também impactam o turismo como um todo e contribuem para seu sucesso, fazendo parte da equação geral por um turismo mais responsável.

O julgamento individual é determinante. Algo que considero um ato grave contra o ambiente pode ser muito menos impactante pro outro. É por isso que há leis regulamentando pelo menos o geralzão da coisa. Mas é claro que no final das contas, a escolha em muitas situações será do consumidor/prestador de serviço/comunidade local. Como a inexistência de impacto é uma utopia, busquemos o equilíbrio, tendo como objetivo o menor impacto social e ambiental possível.

Portanto, da próxima vez que for viajar, faça seu dever de casa antes: busque opções turísticas que levem em consideração a diminuição do impacto danoso nos mais diversos níveis. Pergunte, entenda como o turismo local funciona. E, uma vez no destino, preste atenção às nuances: os restaurantes usam produtos hortifruti locais? A comunidade local participa da atividade econômica turística ou não? O patrimônio histórico é preservado, assim como a cultura local, há leis para tal? Como é o trato ao meio ambiente? Seja, acima de tudo, um turista responsável.

O que será das nossas florestas?

Na verdade, nem sei como começar este post. Não sei o que colocar no início, no meio, no fim. O futuro que se desenha me parece pouco promissor – assustador, pra falar a verdade.

A pergunta do título talvez devesse ser “o que será de nós?” Porque dependemos das florestas para ter qualidade de vida. O que acontece lá talvez pareça estar longe, mas nos afeta de maneira vital. E o Senado, que poderia consertar o estrago feito na Câmara em maio, parece que segue pelo mesmo caminho. Corremos o risco de acabar tendo um código Frankenstein.

Apesar dos alertas de especialistas e dos apelos da sociedade civil, as alterações necessárias parecem não convencer os relatores. No próximo dia 8 (terça-feira), o relatório do Senador Luiz Henrique será votado pelas comissões de Ciência e Tecnologia e de Agricultura.

Precisamos muito cobrar uma postura ética e responsável dos nossos representantes. O assunto é de extrema importância, e afeta nossas vidas de maneira significativa. Não podemos fingir que não é problema nosso.

Há muito material disponível na internet sobre o assunto, mas acho que o movimento #florestafazadiferença esclarece muita coisa. Acesse, informe-se e descubra o que pode fazer para que o pessoal de Brasília nos dê ouvidos.

Imagem daqui

Infraestrutura para a sustentabilidade

Hoje de manhã, lendo as notícias, vi uma chamada para esta matéria do blog De Bike:

http://oglobo.globo.com/blogs/debike/posts/2011/09/13/onde-eu-posso-parar-minha-bicicleta-405353.asp

Fiquei pensando nas dificuldades que enfrentamos quando optamos por nos deslocar de bike. Depois de encarar o trânsito, em geral pouco amigável, o ciclista tem que se preocupar em pensar onde vai parar seu meio de transporte. E, se arruma um lugar em que a magrela não atrapalhe a passagem de pedestres, corre o risco de ver um batalhão deixá-lo a pé. E fiquei pensando na solução oferecida ao ciclista, que perguntou ao guarda onde, então, poderia parar sua bicicleta, já que acorrentada ao poste não podia: que estacionasse perto das motos. No vídeo não aparecia o local de estacionamento das motos, mas em geral é um espaço onde não há nenhum meio de acorrentar uma bicicleta. Então o cara chega no trabalho, desce da bike e a deixa solta no meio da rua? Rélô-ou! Se presa a bike já corre o risco de ser levada, imagina solta.

E por que não mobilizam esses guardas todos para patrulhar áreas propensas a roubos de bicicletas?

Ou para apreender a Mercedes deste cidadão?

É importante que as perguntas feitas pelo Eduardo e a Renata sejam respondidas: “Agora pergunto, pra onde essas bicicletas vão? De que forma é possível resgatá-las? Quais são as regras para parar bicicletas nas ruas, caso não tenha bicicletários/paraciclos por perto?” Eu também quero saber para onde vão as bicicletas e como seus proprietários podem recuperá-las. Transparência, é só isso que a gente quer.

Eu acredito que quem escolhe a bicicleta como meio de transporte merece um profundo respeito do resto do povo e, acima de tudo, do governo. Essas pessoas estão ajudando a criar um mundo menos poluído, com menos trânsito, mais humano, mais silencioso, mais harmônico. Essas pessoas precisam ser estimuladas, não desencorajadas. Que mensagem a prefeitura está passando para quem gostaria de usar a bicicleta como meio de transporte, mas ainda não tomou coragem de tirar a poeira da magrela e se locomover de uma forma mais sustentável?

Pedalar fica parecendo perigoso, ilegal e complicado. Lamentável. E isso aconteceu no Rio, mas poderia ser em outro lugar. Aliás, respeito pelos ciclistas é algo que o Brasil ainda está longe de ter.

Gerenciamento de resíduos: queimar é a solução?

Preocupados com a questão da vida útil dos aterros sanitários e a nova Política Nacional de Resíduos Sólidos, muitos municípios estão estudando alternativas para gerenciar seus resíduos. Entretanto, há um movimento que considero preocupante e precipitado no meio disso tudo. Muitos municípios estão pensando seriamente em instalar usinas termelétricas.

É um assunto delicado. Pressionadas pelo prazo para implantar as providências exigidas pela PNRS, muitas cidades estão abrindo consultas públicas e concorrências para a instalação de termelétricas. Especialistas, no entanto, afirmam que há alternativas viáveis e não poluentes que permitem uma redução do uso de recursos naturais e da quantidade de lixo gerado. Mas são medidas que exigem vontade política, além de uma visão de mundo ainda pouco difundida.

Os defensores das termelétricas dizem que o processo é seguro e, de quebra, gera energia. Basta instalar os filtros adequados para que não haja impacto sobre a saúde da população. Na prática, no entanto, a história parece ser um pouco diferente. A queima de lixo resulta na emissão de metais pesados altamente tóxicos mesmo em baixas concentrações. No processo de queima, minúsculas partículas são geradas, e mesmo os filtros mais modernos não dão conta de filtrá-las, de modo que elas acabam sendo liberadas no ar que respiramos, causando sérios problemas de saúde. Preocupados com esses impactos, médicos europeus lutam para que sejam realizados estudos mais detalhados.

 E, enquanto não se tem uma medida dos impactos reais dessa forma de gestão dos resíduos sólidos, a solução mais inteligente seria adotar uma estratégia de prevenção, redução da geração de lixo, reutilização e reciclagem. Queimar o lixo, no momento, parece ser o caminho mais rápido e fácil para o velho dilema do que fazer com o lixo, agora que já sabemos que o conceito de “jogar fora” não existe, já que só temos este planeta, e é nele que jogamos o lixo, mesmo que, para muitos, ainda baste estar longe dos olhos para que pareça que o problema não existe. As termelétricas podem representar um avanço em sociedades onde a geração de energia é baseada, em grande parte, na queima de carvão, altamente poluente; felizmente, este não é o caso do Brasil.

 Eu acredito que, neste momento, o caminho mais seguro e sensato envolva o aperfeiçoamento da coleta seletiva, o estímulo à compostagem caseira, o desenvolvimento de produtos e embalagens mais eficientes, duradouros, retornáveis e menos impactantes, bem como a redução do uso de materiais descartáveis.

Recomendo uma olhada nos sites http://www.incineradornao.net e http://en.wikipedia.org/wiki/Incineration para mais informações sobre a queima de lixo para a geração de energia. E, se você concorda que precisamos saber mais e que há muito a ser feito antes que se opte por essa alternativa, assine o manifesto contra a incineração.

Tubarões protegidos na região Micronésia

Finalmente uma excelente notícia: representantes dos governos de 5 países da região Micronésia (Palau, Guam, Ilhas Marianas, Ilhas Marshall e Estados Federados da Micronésia – EFM) se reuniram semana passada em Palikir, capital da EFM, para passarem uma resolução [link em PDF] que inicia o processo de transformação de TODA a região micronésia em um santuário de tubarões.

Tubarão em recife de coral das Ilhas Marshall, região micronésia

Tubarão vai nadar mais tranquilo nas Ilhas Marshall...

Não é pouco, pessoal. Apesar da região micronésia ter pouquíssima terra, ela tem muito mar. Mais exatamente, cerca de 2 milhões de milhas quadradas – o  equivalente a uma Europa e meia (sem a Rússia) só de mar, muito mar.

Shark sanctuary map

A área circulada do mapa mostra onde será o maior santuário de tubarões do planeta.  (Mapa tirado daqui, modificado por mim.)

E é no mar que o tubarão vive. Portanto, guardar aquelas águas é ação-chave para uma proteção mais eficaz do grupo por todo o Pacífico, quiçá para o mundo todo, dada a natureza altamente migratória de boa parte das espécies de tubarão.

O processo de criação do santuário de tubarões pretende ser finalizado até dezembro de 2012 (daqui a pouco!), e proibirá a pesca e o finning de tubarões na região. Espera-se que tal processo legislativo se expanda e, aos moldes da lei que já vigora aqui no Havaí, incluirá a proibição do comércio, consumo e posse de barbatanas de tubarão – e se a lei for aprovada nesse nível de requinte, será a cereja do bolo da conservação dos tubarões da década.

Entretanto, sabendo-se que a região micronésia não está distante da China, Taiwan e Japão, maiores pescadores e consumidores de tubarão do planeta – e sabendo que a presença de frota pesqueira dos 3 países na região é intensa, e ainda mais, sabendo-se que a força econômica destes 3 sobre os habitantes da região é muito poderosa – , será extremamente interessante ver como a fiscalização de tal legislação ocorrerá. Eu torço muito para que seja efetiva, mas sei que não será tarefa simples.

Bandeira em Palikir, capital de Pohnpei

Bandeira da Micronésia no complexo federal de Palikir, capital dos EFM (é a Brasília deles, onde os prédios do governo se concentram). Neste local foi assinado a resolução que se compromete a criar a maior área de proteção de tubarões do planeta. Histórico – pros tubarões, pelo menos. 🙂

Mas há um outro adendo bacana a esta iniciativa já tão animadora: esta é a 1a vez que diversos países se juntam para legislar na prática a favor da conservação dos tubarões. 5 países de uma mesma região. Abrem um precedente fenomenal para que outras regiões costeiras de fronteira se juntem e possam elaborar iniciativas similares para a conservação da espécie. Parece que finalmente os grupos políticos passaram a entender uma realidade tão óbvia ululante: que os tubarões não sabem o que é fronteira, não pertencem a um país; que eles pertencem ao mar, e onde há mar, há necessidade de legislar por eles, independente de bandeira.

(Esta boa nova chegou no meu email via Shark Defenders.)

O que herdei dos meus pais e devo deixar para meus filhos?

Pois é,

Pesquisando na internet encontrei um dado de 2004: somente o Brasil produz algo em tormo de 45 milhões de metros de jeans e 204.207.000 de calças jeans. (fonte). A quantidade de água gasta para fabricar uma única calça jeans é de 151,4 litros. (“Segundo o designer da marca, Carl Chiara, o processo de lavagem normal para a fabricação de um jeans poderia gastar até 151,4 litros de água“).Ok! existem vários números por aí. Mas vamos tomar esses como exemplo, mesmo porque são fontes confiáveis, a Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecção (Abit) e da Levi’s. Ainda segundo a Levi’s, para lavar uma calça jeans gastamos algo como 42 litros de água.

Pois bem, uma ducha normal, de boa qualidade, gasta entre 12 a 18 litros de água por minuto (fonte). Vamos abusar um pouco e usar 18 litros. Para concluir a etapa de dados, um bom e relaxante banho, com ducha a gás, leva em torno de 20 minutos. Agora as contas ficam fáceis.

Só no Brasil são gastos, por ano, para fabricar e lavar as calças jeans (considerando uma lavagem por semana): 30.916.939.800 l (para a fabricação) + 445.988.088.000 l (par lavar pelo uso). Somando, temos 476.905.027.800 litros de água. Isso mesmo, 477 bilhões de litros de água apenas no Brasil.

Euzinho, este que vos fala, gasta nos seus banhos (um por dia, pois vivo em terra fria) algo em torno de 6.570 litros/ano. Ufa! Fiquei tranquilo, pois isso representa apenas 72.588.284,29 dias, ou 198.872,01 anos da minha vida. Como o sol vai explodir somente a daqui 5 bilhões de anos, tenho tempo até lá. Dito de outra forma, o que se gasta para alimentar egos, com a produção brasileira de jeans, daria para 72,6 milhões de pessoas tomarem banho.

E como “Dois terços da população mundial em 2025 não terão acesso à água potável” (fonte), fico pensando: ok, vou fazer a minha parte e economizar água do banho para dar de beber a quem tem sede. Mais, vou fechar a torneira enquanto escovo os dentes ou faço a barba. E vou mijar no banho. Afinal, uma descarga gasta 20 litros. E vou apagar as luzes. Enfim, vou seguir, tim tim por tim tim, o roteiro da formiguinha. Vou preservar o meio ambiente. E, sacrifício dos sacrifícios, vou deixar de comer carne. Quem sabe assim o pum das vacas pare de poluir o ambiente.

Usei apenas um exemplo, o do jeans. Multiplique isso pelos milhões de exemplos onde a água é utilizada e terei que me manter vivo até quase o sol explodir. Pensando bem, até que será um fenômeno interessante, o suficiente para me fazer pensar em realmente mudar meus hábitos.

Mas Afonso, não se trata de economizar, o que queremos é uma mudança na “visão do mundo”; queremos que as pessoas tenham consciência de que estarão deixando um mundo ruim para seus filhos e netos e de que podem fazer alguma coisa para mudar. Sim, claro, lembro bem de 1972. Por sinal, lembro de coisas bem anteriores… Lembro do mundo que meus pais me deixaram.

Meus pais me deixaram à porta de um circo. Minha geração resolveu entrar nesse circo e atuar como os palhaços da vez. É, é como um palhaço que me sinto diante da tentativa de “fazer a minha parte”.  Como me sinto como um palhaço, com todos me olhando, cada vez que desfilo garbosamente pelo supermercado com minhas sacolas de pano, enquanto milhares não estão nem aí! Como me sinto como um palhaço, com todos me olhando, cada vez que coloco meu lixo, cuidadosamente separdo, para que o caminhão do lixo esmague tudo junto. Claro, minha consciência ficou tranquila por imaginar que pessoas poderão sobreviver pelo meu ato.

Cheguei a acreditar nessa baboseira toda. Mentira. As pessoas devem sobreviver pelas ações do poder público, que é pago pelo nosso trabalho. E não fazem. Lixo me sinto  a cada vez que digo “Filha, estás demorando muito no banho! Olha a natureza, deves economizar água!’ Palhaços do lixo e o que somos, todos os que defendemos o fazer a sua parte para que os demais usem e abusem do mundo tal qual querem e podem. E não adianta o argumento de que é mudando uma cabeça de cada vez que chegaremos lá. Antes disso o sol explodirá. Antes disso as empresas e a mídia já terão – como já estão fazendo – tomado conta da “causa ambiental” e vendido tudo quanto é porcaria sob o selo “nós defendemos a natureza”. E as pessoas simplesmente continuarão a acreditar nisso. E por quê? Por que é mais fácil enxergar um elefante que uma formiguinha.

Fazer a minha parte tornou-se gastar pólvora em chimango, como dizermos aqui no Rio Grande do Sul. Certo que continuarei a fazer minhas pequenas ações, mas não por acreditar num projeto, numa ideia, na natureza, mas porque algumas são qualidade de vida para mim e os meus. Ainda não cheguei ao ponto de ser ativo na destruição, mas não me peçam mais para ajudar a conservar.

Não privarei mais minha filha de seus banhos de meia hora enquanto corruptos de todas as espécies roubam meu dinheiro e … tomam seus banhos de meia hora (se fosse só isso…)

Foi esse o circo que meus pais me deixaram e esse será o mundo que deixarei para minhas filhas. Cabe a elas escolher, assim como coube a mim.

 

Ministério do Meio Ambiente convida sociedade a contribuir para elaboração de Plano de Produção e Consumo Sustentáveis

O Plano objetiva guiar o Brasil rumo a uma economia de baixo carbono e desenvolvimento sustentável com base nas propostas do Processo de Marrakech. Aqui você encontrará uma apresentação do plano e menu para acessar documentos, links e formulário para envio de sugestões. Está aberto o processo de consulta pública, e a sociedade tem 45 dias para apresentação de contribuições. No entanto, não consegui descobrir a data certa de publicação (diz apenas setembro de 2010).
O Plano está intimamente ligado à Política Nacional de Resíduos Sólidos e à Política Nacional Sobre Mudança do Clima.
A iniciativa parece interessante, e espero, sinceramente, ver resultados concretos no curto e médio prazos.