A morte definitiva da agricultura familiar

Transgenicos-terminator

Tramita no Congresso Nacional o Projeto de Lei n.º 268/2007, de autoria do deputado Eduardo Sciarra (PSD/PR):

Art. 1º O inciso VII e o parágrafo único do art. 6º e o caput do art. 28 da Lei nº 11.105, de 24 de março de 2005, passam a vigorar com a seguinte redação:

“Art. 6º……………………………………………………………………………………………………………………………..

VII – a comercialização de sementes que contenham tecnologias genéticas de restrição de uso de variedade, salvo quando se tratar de sementes de plantas biorreatores;

Parágrafo único. Para os efeitos desta Lei, tecnologias genéticas de restrição de uso de variedade são mecanismos moleculares induzidos em plantas geneticamente modificadas para a produção de sementes estéreis sob condições específicas.

Art. 2º Comercializar sementes que não sejam de plantas biorreatores e que contenham tecnologias genéticas de restrição de uso de variedade:

Pena – reclusão de 2 (dois) a 5 (cinco) anos, e multa.”

Art. 2º O artigo 3º da Lei nº 11.105, de 24 de março de 2005, passa a vigorar acrescido do seguinte inciso:

XI – Biorreatores: organismos geneticamente modificados para produzirem proteínas ou substâncias destinadas, principalmente, ao uso terapêutico ou industrial.

Art. 3º Revogam-se os artigos 11 e 12 da Lei nº 10.814, de 15 de dezembro de 2003.

As leis citadas, 11.505/2005 e 10.814/2003, são, respectivamente, a lei que “estabelece normas de segurança e mecanismos de fiscalização de atividades que envolvam organismos geneticamente modificados – OGM e seus derivados, cria o Conselho Nacional de Biossegurança – CNBS, reestrutura a Comissão Técnica Nacional de Biossegurança – CTNBio, dispõe sobre a Política Nacional de Biossegurança – PNB” e “Estabelece normas para o plantio e comercialização da produção de soja geneticamente modificada da safra de 2004, e dá outras providências”.

A leitura da “justificativa” é imprescindível para a compreensão do que está sendo proposto.

Para quem sabe ler entrelinhas, a Monsanto diz que “É verdade que as GURTs [Tecnologia de Restrição no Uso do Gene, ou as chamadas sementes “Terminator”, as estéreis, ou como chama o PL 268, as que tenham “restrição de uso de variedade”] oferecem certos benefícios. Essa tecnologia pode ser usada para limitar o uso ou propagação de um material genético específico na agricultura. Por exemplo, criadores de tecnologia podem investir em características benéficas e utilizar as GURT para garantir que características específicas sejam disponibilizadas apenas para produtores que desejem pagar e utilizá-las.” (leia aqui o texto da Monsanto)

A Monsanto admite a preocupação, ao dizer que “muitos expressaram preocupação de que as sementes estéreis pudessem representar uma ameaça à sobrevivência de pequenos agricultores em países em desenvolvimento, pois há séculos, esses produtores têm salvado sementes para cultivar na próxima safra.”

Eis a questão: quem adotar esse tipo de semente (e quem não irá, diante do fato de que ate para conseguir algum tipo de financiamento o produtor deve se sujeitar às exigências do sistema, dentre elas a de que compre sementes transgênicas?) se tornará eterno dependente da Monsanto (ou outros fabricantes).

A sustentabilidade que boa parte da agricultura familiar (e orgânica) consegue provém justamente da possibilidade de obter sementes da safra que está sendo colhida.

Isso será a morte definitiva da agricultura familiar.

O site “BAN TERMINATOR” é claro quando diz:

Por que Isso é um Problema?

Mais de 1,4 bilhão de pessoas, principalmente famílias de pequenos agricultores, no mundo em desenvolvimento, têm como fonte principal de sementes as guardadas de seus próprios cultivos. As sementes Terminator forçarão à dependência de fontes externas e quebrarão com as práticas de troca de sementes dos povos locais e indígenas, bem como com a prática milenar de seleção e reprodução efetuada pelos agricultores – a base para a segurança local de disponibilidade de sementes.

Se o Terminator for comercializado, a esterilidade das sementes será, provavelmente, incorporada em todas as plantas GM. Isso porque a esterilidade das sementes permite um monopólio muito mais forte do que as patentes; ao contrário das patentes, não há data de expiração, nenhuma exceção para os melhoristas e nem necessidade de advogados.”

É mais um daqueles projetos que vão tramitando “quietinhos” no Congresso.

Uma escola sem papel, é possível?

Bla bla bla, por Harry Scheihing, em CC

 

Em 2007, Lucia Malla criou o meme das 3 atitudes ecoconscientes que consistia especificamente em postar as 3 atitudes que pretendíamos praticar na vida para melhorar a situação ambiental do planeta Terra. Naquela ocasião, Lucia citou algo que tem me feito repensar uma das atitudes mais comuns em meu local de trabalho: o uso indiscriminado de folhas de papel e o uso exagerado de copiadora e impressora.

Lucia argumentava que deveria haver uma campanha para que trabalhos escolares escritos só fossem aceitos em formato digital, nada de papel, pois, afinal, a escola, onde, em tese, tudo se discute, deveria dar o exemplo à sociedade. Concordo plenamente.

Agora, em 2011, assistindo ao debate “Desafios da mobilidade“, sobre o uso de celular, notebook, tablet e outras tecnologias na sala de aula, como ferramentas educacionais, pus-me a refletir sobre de que maneira poderia fazer esta transição na comunidade escolar em que trabalho, uma vez que, grande parte dos alunos não tem acesso a toda esta parafernália tecnológica.

É um caminho a percorrer. Ainda há muitos professores que resistem ao uso das tecnologias, porém, dentro do possível, temos procurado incentivá-los a usar mais o data-show, a sala de informática, o email, os blogs, os vídeos, o celular, as redes sociais, não apenas para entretenimento, mas para troca de saberes, questionamentos, busca de conhecimento.

A tecnologia faz parte do cotidiano de todos os jovens, mesmo os de comunidade menos favorecidas economicamente. Estes alunos esperam que o professor faça uso dela em sala de aula. Entregar um trabalho por email, ou em pendrives é mais atraente para o aluno e mais produtivo para o professor.

Espero estar viva para  ver este tempo em que menos árvores serão derrubadas, menos folhas serão impressas; e estar em uma escola em que professores e alunos desenvolvam um processo de aprendizagem cooperativa para construir a produção de conhecimento.  Os alunos poderão tomar notas diretamente em seus laptops – que a escola oferecerá – e utilizar meios digitais para entregar todas as suas apresentações e trabalhos.

Ter uma escola quase inteiramente sem papel não é utopia. Obviamente, para algumas situações, a folha impressa ainda substituirá a digital, mas eliminar o papel completamente da sala de aula não é o objetivo. Pelo contrário, o objetivo é aproveitar as tecnologias que realmente minimizem os custos de impressão, viabilizem a distribuição de materiais de ensino que facilitem a aprendizagem, e, principalmente, poupem as nossas árvores.

Além disso, estimular o  trabalho por via electrônica ajuda a atender às necessidades  de uma nova geração de alunos que está familiarizada com o mundo digital, como também ajuda a alcançar a meta de produzir e utilizar menos papel no mundo.


Que influência terá o fim do petróleo nas nossas vidas?

Como escrevi antes, acredito que esteja próximo o momento em que o petróleo deixará de ser utilizado como combustível. Pelo menos como combustível para automóveis. E se, por um lado, o fim das bombas de gasolina e diesel nos postos será uma boa notícia, pois representará a utilização de combustíveis e tecnologias menos agressivas ao meio ambiente, por outro lado o incentivo à individualidade, com um sistema que privilegia o transporte privado em substituição à uma política séria de transporte coletivo, parece ser um caminho sem volta.
Existem animais que vivem em sociedades, como os lobos, por exemplo, assim como existem animais independentes, como os ursos, que se encontram somente para o acasalamento. O ser humano dos tempos atuais encontra-se entre essas duas espécies, mas cada vez mais próximo dos ursos, traindo as próprias raízes antropológicas e se acasalando muito mais do que ursos e lobos juntos, procriando, educando e inserindo os próprios filhos nesse caminho irreversível rumo à individualidade que estamos construindo. Sentimo-nos seguros, protegidos e confiantes nas nossas – cada vez menores – gaiolas móveis ou imóveis. Vamos, aos poucos, reduzindo voluntariamente o contato com outros seres da nossa espécie. A mudança de experiências coletivas por atividades solitárias ou restritas ao grupo familiar, como no caso da substituição do cinema e do teatro pela televisão, somadas ao advento da Internet, vai nos transformando em membros de guetos e tribos cada vez menores e mais seletivas, quando não em isolados habitantes metropolitanos. Uma multidão de solitários ursos urbanos distribuindo e-mails invés de abraços.
Não, não acredito que o problema da superpopulação ou do incentivo ao individualismo em detrimento da sociabilidade seja culpa do petróleo, mas do sistema criado e incentivado pelo imenso volume de dinheiro proporcionado por toda essa engrenagem. A cada duas semanas é lançado um novo modelo de computador, automóvel, celular, máquina de café expresso ou qualquer outro objeto de uso individual, convidando, seduzindo, incentivando, constringindo o consumidor a fazer o que ele sabe fazer melhor: consumir o produto de uso pessoal, dando uma importância à privacidade muito superior que ao convívio social. Depois de termos perdidos a harmonia e o contato com a natureza, estamos abrindo mão de uma característica fundamental da nossa espécie, o hábito da convivência em grupo. A segurança, o conforto, o stress do dia a dia, a necessidade de trabalhar cada vez mais… Qualquer argumento serve para justificar esse comportamento anormal à espécie humana, apesar de coletivo.
Tampouco penso que a modificação do transporte urbano seja prioridade de algum governo, nem mesmo que o desenvolvimento de um sistema eficiente possa reverter o processo de individualização da sociedade, mas a expansão e a adequação de um sistema de transporte com foco na coletividade ajudaria muito as classes mais baixas, que atualmente dispõem de meios de locomoção de massa que só contribuem para o aniquilamento da dignidade dos usuários, diminuindo cada vez mais a autoestima. Uma revolução no transporte público eliminaria esse aviltamento social e a consequência poderia ser a redução do uso de automóveis privados. Mas melhorar o sistema de transporte de massa pode não bastar. Seria necessário uma forte pressão (uma assustadora carga tributária?) contra automóveis e combustíveis forçando a migração para o transporte público, gerando a necessidade de adequá-lo velozmente. Uma honesta mudança na ótica no transporte de pessoas poderia contribuir, isso sim, na formação de uma consciência do indivíduo como parte da coletividade. O transporte público ideal deveria ser como a praia, onde classes sociais diferentes dividem o mesmo espaço e recebem o mesmo tratamento. E Se divertem e relaxam.
Em resumo, infelizmente o fim do petróleo como combustível não deverá causar nenhum impacto sobre o nosso cotidiano. Haverá apenas a troca de um combustível por outro, menos poluente e sustentável, o que não deixa de ser um passo monstruoso de enorme. Mas essa inversão de valores, com a coletividade que deixa de ser prioridade e um insistente estímulo à individualidade, é algo que acabará por definir a sobrevivência da nossa espécie. Nada substituirá a nossa necessidade de viver “em sociedade”. Sei que o grande entrave no sistema de transportes é o inchamento das cidades, que, sem planejamento, crescem desorganizadamente e se tornam cada vez mais impessoais; assim como tenho consciência de que o problema da superpopulação há muito deixou de ser mera estatística para transformar-se no maior desafio deste milênio que está iniciando. Tudo isso só confirma a necessidade de uma mudança radical – e oposta à atual – na filosofia do transporte de pessoas.
Quanto a você, caro leitor, que ri, que dá de ombros ou que desperta para uma nova preocupação; a você, caro leitor, que sacode o teclado recém-comprado para liberá-lo das migalhas, que sonha ou que possui um carrão na garagem com medo de ser roubado; a você, que sacode a cabeça com superioridade ou que sacode todas as manhãs dentro de um ônibus ou vagão lotado; a você, leitor que discorda das minhas opiniões ou que se solidariza com as minhas preocupações, faço-lhes um pedido: comecem a buscar e propor soluções. Eu não as tenho, sou apenas aquele que faz as perguntas. Sou como o lobo que vê crescer o número de ursos e me sinto ameaçado. Para evitar que me questionem se eu já imaginei um mundo sem computador, automóvel, celular ou máquina de café expresso, adianto: sim, já imaginei. E você?

A fome no mundo é um bom negócio

As multinacionais começam a travar uma guerra surda, quase sem barulho e que poucos têm notícias: a guerra do potássio. Trata-se de um metal muito leve, segundo em ordem de leveza depois do lítio. É menos denso que a água e tão macio que se pode cortar facilmente com uma faca e cujos principais produtores são o Canadá, a Bielo-Rússia e a Rússia, com 95% da produção utilizada em fertilizantes.
Como a população mundial não pára de crescer, cresce também a necessidade de produzir alimentos e a demanda por fertilizantes só aumenta. Na Rússia, Anatoly Skurov, Suleiman Kerimov e Zelymkhan Mutsoyev conseguiram o controle de 69% da Silvinit, o maior produtor russo deste que está virando um metal tão preciosos quanto o ouro. A representação da Silvinit na produção de potássio na Rússia é tão grande que a situação se caracteriza como monopólio. Para não ficar atrás, a anglo-australiana Bhp Billiton fez uma oferta irrecusável pelo controle da canadense Potash Corp, a maior produtora mundial de potássio. A proposta não deve ter sido tão irrecusável assim, pois foi rejeitada. Mas a guerra continua, incluindo o fósforo, outro componente dos fertilizantes.
Permitir a concentração da produção mundial de potássio e fósforo nas mãos de uns poucos é um risco que não podemos permitir, pois isso levaria à formação de cartel que determinaria preços e controlaria fornecimentos. O simples boato de um possível exaurimento das reservas naturais elevaria os preços dessas matérias-primas às estrelas, colocando toda a cadeia agrícola sob controle dos fornecedores de potássio e fósforo. Mas somos impotentes diante dessa guerra.
A saída é investir na produção de fertilizantes alternativos, como vem fazendo a Embrapa há anos, com diversos programas desenvolvidos, em desenvolvimento e divulgando, para que essa tecnologia seja disponível e acessível ao agricultor brasileiro. Celeiros do mundo?
Via La Stampa.

A máquina de leite

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Riva Del Garda, a jóia do fim do lago.
Em abril do ano passado eu tive o prazer de visitar o amigo e companheiro de Faça Flavio Prada em Riva Del Garda, norte da Itália, cidade à beira do Lago Del Garda. O Flávio é aquela pessoa irreverente que já conhecemos na blogosfera – e na vida real ele é das pessoas mais bacanas que existem.
Pois ele nos guiou pela cidade de Riva, numa animação de dar gosto. Mas confesso que o que mais me atraiu foi uma cotidianice “verde”: a máquina de leite.
Assim que chegamos, o Flávio falou que precisava comprar leite. Achei que ele ia ao supermercado ou à padaria. Aí ele pára num local que mais parecia um ponto de ônibus com uma vending machine ao fundo, na área central da cidade. Eu não estava entendendo nada.
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Aí ele põe o dinheiro na máquina, pega uma garrafa de plástico vazia limpa.
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Depois posiciona a garrafa embaixo de uma “torneirinha”…
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… aperta o botão, e sai… leite fresco, tirado da vaca. Mesmo.
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Pois é. A máquina faz até “muuuu” pra você se sentir mais “ambientado”. O Flávio me explicou então que a máquina é abastecida diariamente com leite fresco que os produtores locais trazem de suas fazendas e sítios, tudo ali nas redondezas de Riva. Ou seja, leite fresco local, 100% natural, cujo gasto com transporte é irrisório – o que já torna a alternativa muito mais “verde” que qualquer leite vendido no supermercado, por mais saudável que seja. E, de acordo com o Flavio, é o leite preferido dos habitantes de Riva.
Eu fiquei empolgadíssima com a idéia de eliminar o trânsito do alimento, um passo importante para a melhor sustentabilidade de um produto – queria comprar leite toda hora, mas o Flávio só precisava mesmo de 2 litros pro café da manhã da família. Pedi a ele para, assim que desse, filmar a “invenção” pra gente postar aqui, como um exemplo de uso da tecnologia para uma melhor qualidade de vida da população, pela oportunidade de alimentação natural fresca, e com um pouco mais de sustentabilidade (eita, palavrinha da moda…), incentivo ao produtor e à produção local.
Eis então o vídeo que o Flavio Prada produziu (com narração do próprio e participação do Júlio Prada), contando melhor sobre a ecoleiteira:

Um bom exemplo do uso da tecnologia para o benefício da população.

Água elástica

Li primeiro via twitter do FiNS Magazine e confesso que achei de cara que era um hoax. Afinal, água elástica? A combinação de palavras tinha toda pinta de lenda de web. Retwittei pela curiosidade, mas com várias pulgas atrás da orelha, já esperando aparecer o primeiro para zoar da minha barrigada.
Mas aí eu mesma não resisti. E fui atrás para saber se era verdade. E era.
Saiu na Nature da semana passada o artigo de um grupo de pesquisadores japoneses e coreanos (Wang e colaboradores) contando como produziram gel de água (hidrogel) com propriedades elásticas. Meus conhecimentos patéticos de tecnologia de materiais me impediram de captar 100% da mensagem do artigo (tenho certeza que a Fernanda pode falar melhor sobre), mas o que li e entendi me impressionou. Afinal, o grupo diz que o hidrogel pode vir a ser um substituto super-ambientalmente correto pro plástico!
Seria o paraíso verde, se pensarmos bem. Imagine tudo que hoje é feito de plástico (que leva séculos para degradar) ser substituído por um hidrogel, basicamente água (96-97%) misturado com 2 a 3% de nanoplacas de argila, uma macromolécula “ligadora” e poliacrylato de sódio (menos de 0.4%)? Aí me veio à cabeça o 1º delírio: será que o hidrogel resistiria ao microondas? Ou derreteria? (Pensei nos potinhos usados para a gente esquentar comida.) Os próprios autores respondem no artigo: acima de 80ºC, começam a se formar bolhinhas dentro do material, o que gera a sensação de “cerâmica quente”.
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Como faz o hidrogel. Repare na figura com o material na ponta dos dedos de uma pessoa, como se dobra bem.
Enfim, viagens à parte, a idéia de um hidrogel não é nova. Mas em geral, fazem-se hidrogéis com ligações covalentes, mais fortes, cujo lado negativo é exatamente esta força: dificulta a capacidade de se “moldar” o gel, ou de, uma vez endentado, voltar ao formato original (uma certa auto-correção). Este é exatamente a vantagem do hidrogel dos japoneses, a auto-correção. E foi conseguida por usarem ligações não-covalentes, mais maleáveis e rápidas de voltarem ao original.
Há inúmeras vantagens no uso do hidrogel. Dentre as que mais me impressionaram, está a capacidade de fazê-lo à temperatura ambiente. Outra bacana é que é baratíssimo: água e argila, basicamente. Mas também é interessante que o gel não é fácil de se misturar com outros materiais uma vez feito. Pensando nos potinhos de comida, sua marmita da manhã não “passaria” pra dentro da parede do pote. Abaixo, a figura do artigo em que eles colocaram o corante azul de metileno em pedaços do hidrogel. Tanto na horizontal como na vertical, o azul não se dilui com a parte transparente. E fizeram um coração de hidrogel, mergulharam todo num solvente orgânico, e perceberam que depois de um tempo, o solvente ocupava o lugar da água na estrutura, mas não a modificava.
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Bacana, não?
Vale ressaltar também que o grupo, para provar o uso biológico (mais?) do gel, colocou moléculas da proteína mioglobina por uma semana dentro do hidrogel à temperatura ambiente. A proteína reteve 70% de sua atividade catalítica. (E tenho quase certeza que foi esse experimento específico que permitiu o artigo sair na Nature. Porque aí cobre todas as grandes frentes.)
Uma invenção bacana dessas dá mais uma pontinha de esperança num futuro verde de verdade, não? A tecnologia à serviço do ambiente, um sonho ainda possível.
*Todas as figuras sob licença CC da Nature.

A energia que vem de dentro

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Há algum tempo, o João me perguntou em um email sobre a existência de usinas de energia geotérmica aqui no Havaí. A pergunta faz todo sentido: com um vulcão como o Kilauea, ativo há mais de 20 anos e sem previsão certa para cessar sua atividade, utilizar de forma inteligente a energia que esse furor todo produz não pode ser uma idéia deixada de lado. Principalmente nos tempos de hoje, em que clamamos por um modo de gerar energia que seja menos poluente e com menor impacto negativo ao planeta.
A energia geotérmica é basicamente aquela que vem das profundezas da Terra. Nosso planeta possui em seu interior, no chamado core central, materiais originados do processo inicial de formação do planeta. Esses minerais estão concentrados em uma temperatura de quase 5,000 graus Celsius, há mais de 6000 quilômetros abaixo da superfície onde moramos. Como todos aprendemos nas aulas da 5a série, calor é uma forma de energia – então imaginem o que há de energia concentrada potencialmente utilizável num ambiente enorme que está a 5000 graus.
Só há um pequeno “probleminha” logístico para usar essa energia que está no interior da terra: como captá-la. Perfurar 6000 quilômetros ainda não é viável. Então fazemos o que nos é possível com a tecnologia que desenvolvemos: captar a energia geotérmica em pontos da crosta terrestre onde esse calor se aproxima mais da superfície. Esses locais são em geral vulcões, fontes hidrotermais e pontos no fundo do solo onde pedras se fundem sob ação da temperatura (mas que não chegam à superfície). Quando não utilizamos o calor dessas áreas, ele é simplesmente perdido para a atmosfera.
E aí que entra o Havaí.
O arquipélago havaiano está “sentado” em cima de um hotspot, uma área onde a atividade geotérmica se aproxima bastante da superfície. As ilhas se formaram pelo escorrer de resquícios minerais aflorados onde estão hoje os vulcões. À medida que a plataforma continental foi se movendo na direção nororeste (rumo ao Kamchatcka!), a lava que escorria foi se endurecendo, formou o solo das ilhas e o que vemos hoje no mapa.
Mas o hotspot permanece no mesmo ponto. Pela existência dele, o Kilauea está em atividade desde 1983, e a lava não para de escorrer um dia sequer desde então – ainda causa estragos. E causa também formação de terra nova, crescimento diário da ilha em alguns centímetros, e expõe sua capacidade geotérmica gigantesca.
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…e a ilha só crescendo…
Uma capacidade ainda mal-aproveitada no Havaí, convenhamos. Com todo o potencial disponível, há apenas uma usina geotérmica nas ilhas, a Puna Geothermal Venture, na região de Puna, ao sul de Hilo, bem próxima ao Kilauea. Puna é uma pequena empreitada de caráter privado que retira energia a partir do vapor e da água quente da lava vulcânica. A usina de Puna tem capacidade de geração de 30 megawatts (Itaipu gera 92,000 gigawatts, a título de comparação). Isso corresponde a 31% da geração de energia renovável do estado e a 20% da energia consumida na Big Island, onde está instalada. A maior vantagem de Puna é sua contribuição nas emissões de carbono: praticamente zero. Além disso, 100% dos gases e fluidos geotérmicos que restam do processo são reinjetados na crosta, minimizando o resíduo final da geração de energia.
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As fontes geotérmicas que afloram no parque Whakarewarewa, em Rotorua, Nova Zelândia.
Há melhor aproveitamento da energia geotérmica em outros lugares do mundo, como na Islândia, Itália, Filipinas e Nova Zelândia. Afinal, esta é uma opção potencialmente limpa, mesmo que ainda não tão eficiente – ela é renovável. Acho que um investimento mais encorpado nesse tipo de geração de energia trará mais benefícios que estragos ao nosso já tão maltratado planeta. Pondo na balança, é uma opção literalmente quente pro futuro.
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– Mais sobre energia geotérmica:
1) Semana passada houve uma entrevista interessante sobre energia geotérmica no Havaí na Rádio Pública. O entrevistado foi o gerente da usina de Puna. Nesta reportagem, uma geral sobre a usina no seu aniversário de 15 anos.
2) Vale ressaltar que nem todas as usinas geotérmicas são não-poluentes como a havaiana. A retirada de fluidos e gases do centro da Terra pode descarregar na atmosfera quantidades aviltantes de resíduos tóxicos naturais. Portanto, investimento em usina geotérmica também prescreve investimento em tratamento adequado dos resíduos da extração e da pós-produção de energia, para minimizar a poluição e emissão de gases na atmosfera. Mas a usina não utiliza nenhum combustível fóssil para funcionar, e é aí que mora sua grande vantagem no sistema atual: independência do petróleo e da política que vem atachada a ele.
3) Um texto mais técnico sobre a renovabilidade e a sustentabilidade da produção de energia geotérmica. [Link em pdf]

Água mineral II


Há algum tempo escrevi aqui um post esclarecendo o porquê do consumo de água mineral na Europa. Uma leitora havia deixado um comentário sugerindo que eu experimentasse um filtro da marca Brita, que não encontrei na cidade. Em Dezembro passado, num jantar na casa de um vizinho, descobri que já era possível encontrar o tal filtro. Trata-se de uma simples jarra com um elemento filtrante que deve ser substituído quando um pequeno dispositivo da jarra informa ser exaurido.
Comprei no dia seguinte e descobri que a loja aceitava o cartucho usado para ser devolvido ao fabricante para reciclagem. Meio ressabiado, usei o filtro desde então, enquanto me informava sobre a potabilidade da água oferecida pelo fornecedor público (a água que sai da torneira das casas). Durante a pesquisa descobri que a água tratada na Itália é, de um modo geral, de boa qualidade, apesar do gosto forte do cálcio que forma o calcário, presente em quase toda a península. O jornalista Giuseppe Altamore, investigador da situação da água potável italiana, chega a afirmar que se pode beber sem medo a água da torneira, com exceção de Amiata, na Toscana, onde o teor de arsênico é cinco vezes superior ao nível permitido pela legislação. E antes que você me pergunte como é possível, esclareço que a lei italiana é assim, cheia de emendas e rasuras, para permitir esse tipo de absurdo. O mesmo jornalista nos alerta sobre uma pesquisa alemã elaborada pelos cientistas Martin Wagner e Jorg Oehlmann da Goethe University de Frankfurt, publicado na revista Environmental Science and Pollution Research. Os estudiosos analisaram algumas marcas de água mineral e concluíram que alguns compostos hormonais das garrafas plásticas podem ser transferidos para a água. Martin Wagner e Jorg Oehlmann sugerem que o estudo é apenas a ponta de um iceberg, presumindo que outras embalagens plásticas de produtos alimentares também poderiam contaminar os alimentos.
Voltando ao filtro Brita, é extremamente simples de usar, bastando enchê-lo com água e aguardar alguns segundos para que a água da torneira perca o gosto característico, ligeiramente salobro. Água para beber, fazer chá, café ou cozinhar, sem o inconveniente das embalagens plásticas. Para evitar um contato prolongado com o plástico do filtro, transfiro imediatamente a água filtrada para três jarras de vidro com tampa. Uma fica sobre a mesa da cozinha, para fazer café, etc. As outras duas vão para a geladeira. Mas nada de fazer grandes estoques de água filtrada, pois é sempre um produto alimentar a ser considerado com curto prazo de validade.
Economicamente também é vantajoso. Em casa consumíamos 3 garrafas de água de dois litros, diariamente. O preço médio de uma garrafa de água mineral – na região onde moramos – é de 0,50 euros, totalizando, em média, 45 euros por mês. Uma caixa com três filtros custa 19,99 euros. Como usamos um filtro por mês, o que equivale a 6,66 euros, economizamos algo como 38,34 euros por mês.
Acredito que um corpo em boa saúde produza todos os hormônios de que necessita, sem precisar dos eventuais hormônios transmitidos pelas embalagens plásticas. Economizar também é um fato positivo, mas o que me levou mesmo à procura de uma alternativa às garrafas plásticas da água foi a ânsia que me causava aqueles sacos de lixo cheios de garrafas vazias, que eu não tinha certeza de que seriam realmente reciclados.
Ufa! Deu sede.

Dificuldade nos comentários

Alguns leitores avisaram-nos de que não estavam conseguindo comentar no blog. Pela lista de discussão interna da Verbeat, ficamos sabendo que todo o portal está sem comentários, por tempo indeterminado, devido a uma falha no sistema. Grande Tiagón está trabalhando para reativá-los, mas por enquanto, quem quiser deixar comentário em qualquer post, por favor, não se acanhe em nos enviar email:
facaasuaparte ARROBA gmail PONTO com
A equipe do Faça a sua parte agradece antecipadamente a compreensão dos leitores.